A voz docente na educação rural: acomodação da
fala e alfabetização como mediações
da
qualidade educativa[1]
La
voz docente en la educación rural: acomodación del habla y alfabetización como
mediaciones de calidad educativa
|
Alba Lucía Barajas-Lizcano[*] https://orcid.org/0000-0002-1157-2907 Institución Aguada de Ceferino municipio de Girón,
Departamento Santander, Colombia. |
Adrián Filiberto Contreras-Colmenares[†]
https://orcid.org/0000-0001-6711-3649 Profesor Emérito de la Universidad de Los Andes-Táchira
/ Venezuela. |
Resumo
A educação rural na Colômbia é marcada por desigualdades significativas em
relação à área urbana. Exigem-se conquistas equitativas que transcendam as
limitações contextuais. Um elemento determinante é o discurso docente no ensino
da leitura e da escrita. O objetivo foi examinar como os professores rurais
interpretam e adaptam os referenciais de qualidade do Ministério da Educação
Nacional por meio de estratégias comunicativas ajustadas ao ambiente
sociolinguístico. Metodologicamente, empregou-se uma pesquisa documental e de
campo sob o método etnográfico, com sete (07) informantes‑chave. Os achados
permitem afirmar que a capacidade do professor para adaptar a linguagem e as
metodologias à realidade cultural é vital para a aprendizagem significativa.
Conclui‑se que o discurso do professor rural, ao integrar e acomodar a fala,
constitui a estratégia fundamental para que os referenciais de qualidade sejam
internalizados e aplicados, durante as práticas pedagógicas, e as transforma em
pertinentes e enriquecedoras.
Palavras‑chave: educação rural, alfabetização,
mediação, sociolinguística, qualidade educativa.
Resumen
La educación rural en
Colombia está matizada por brechas desiguales significativas respecto a la
urbana. Se exigen logros equitativos que trasciendan limitaciones contextuales.
Un elemento determinante es el discurso docente en la enseñanza de la lectura y
la escritura. El objetivo fue examinar cómo los docentes rurales interpretan y
adaptan los referentes de
calidad del Ministerio de Educación Nacional mediante estrategias comunicativas
ajustadas al entorno sociolingüístico. Metodológicamente, se empleó una
investigación documental y de campo bajo el método etnográfico, con siete (07)
informantes clave. Los hallazgos permiten aseverar que, la capacidad del
docente para adaptar el lenguaje y las metodologías a la realidad cultural, es vital para el aprendizaje significativo. Se
concluye que el discurso del docente rural, al integrar y acomodar el habla,
constituye la estrategia fundamental para que los referentes de calidad sean
internalizados y aplicados, durante las prácticas pedagógicas y las transforma
en pertinentes y enriquecedoras.
Palabras Clave: educación rural,
alfabetización, mediación, sociolingüística, calidad educativa.
Introdução
O presente discurso escritural está
orientado a examinar como os professores rurais interpretam, adaptam e
implementam os referenciais de qualidade do Ministério da Educação Nacional da
Colômbia (MEN, 2006)
em seus processos de alfabetização, por meio de estratégias comunicativas
ajustadas ao contexto sociolinguístico, a partir de uma perspectiva crítica
apoiada na teoria da acomodação da fala e na abordagem sociocultural.
Especificamente no que diz respeito à leitura e à escrita utilizadas pelos
professores que atuam nos espaços rurais. Como se pode observar, a literatura
tem descrito a existência de uma lacuna na qualidade educativa em relação à
ação docente que se desenvolve no meio urbano. Portanto, é essencial
compreender as dificuldades enfrentadas pelos professores que realizam sua
atividade pedagógica no meio rural. Da mesma forma, é necessário entender como
eles interpretam e adaptam, em sua prática pedagógica, os referenciais de
qualidade educativa propostos pelo MEN (2006). E, dentro deles, especificamente aqueles referentes aos padrões básicos
de competências da linguagem.
É necessário levar em consideração que a
formação básica que os professores receberam, por meio das universidades,
muitas vezes influencia a forma como enfrentam a prática pedagógica no que
concerne ao ensino da leitura e da escrita. Deve-se dizer que há diferenças
notáveis quando se trata de educadores que possuem formação pedagógica como
professores de educação primária, em comparação com aqueles que são
incorporados ao exercício docente, mas que possuem profissões não docentes. Daí
aparecem diferenças notórias, dependendo da formação prévia e específica
recebida por aqueles que exercem a função docente.
Assim sendo, é necessário ter clareza
quanto ao conhecimento que os professores rurais possuem sobre os referenciais
de qualidade no ensino da leitura e da escrita. Em relação à sua prática, o
professor rural manifesta as marcas de sua formação profissional, bem como suas
próprias concepções sobre o processo de ensino. No entanto, evidenciam-se
contradições entre esses saberes teóricos e as crenças pessoais que orientam
sua prática docente. Essa situação se agrava devido ao fato de que alguns
professores do setor rural são designados para escolas multisseriadas sem
conhecer as exigências dos referenciais de qualidade, uma vez que as
universidades não incluem esses temas em seus programas de formação.
Sob esse prisma, então, assumiu-se a
intenção de examinar como os referenciais de qualidade do MEN
(2006) se integram tanto no discurso quanto na
prática pedagógica dos professores que trabalham nas zonas rurais. Nesse
contexto, o professor do setor rural precisa repensar, reconstruir e adequar
uma didática para o ensino da leitura e da escrita em um contexto que é marcado
pelo desenvolvimento de sua prática pedagógica em escolas multisseriadas. Do
ponto de vista das necessidades educativas, Núñez
(2010) propõe uma mudança que inclua uma política
educacional. Isso implica refletir sobre como fortalecer a educação rural com
programas que incorporem a cultura, os saberes e os interesses dos alunos. Da
mesma forma, destaca-se a necessidade de empoderamento da prática pedagógica,
promovendo uma comunicação aberta à necessidade do estudante.
Nessa perspectiva, deve-se entender que a
educação no meio rural representa, atualmente, um desafio, mas também é uma
oportunidade para alcançar a equidade social, a partir do ensino da leitura e
da escrita, como competências fundamentais para o desenvolvimento cognitivo e a
comunicabilidade. É necessário compreender que, nos contextos rurais, a
diversidade de idades e os níveis de aprendizagem nas salas de aula
multisseriadas tornam prioritária a incorporação de estratégias pedagógicas
flexíveis e fundamentadas nos princípios próprios que a qualidade educacional
exige.
Agora, quanto à dissertação discursiva
derivada da pesquisa realizada, é importante indicar que o ensino da leitura e
da escrita no meio rural se fundamenta nos princípios de justiça educacional e
no direito à formação integral, conforme proposto por Freire
(1977) e
Vygotsky (1978), os quais destacam a importância do
contexto sociocultural nos processos de alfabetização. O ensino da leitura e da
escrita nesses espaços requer metodologias que não apenas transmitam
conhecimento, mas que potencializem o pensamento crítico e a construção
autônoma da aprendizagem, considerando a interconexão entre linguagem,
identidade e comunidade.
Do ponto de vista metodológico, o ato
escritural se justifica na medida em que é elaborado com base em uma pesquisa
desenvolvida sob a abordagem qualitativa. Em consonância com isso,
estabeleceu-se como via de aproximação ao objeto de investigação: a etnografia.
Agora, dado que se tomou como parte da investigação o discurso docente em suas
próprias particularidades discursivas, utilizou-se, como parte do processo
analítico, a narrativização (Biglia e Boent-Martí, 2009, como citados em Silva Batatina, 2017). Para efeitos de coleta de informação, os
informantes foram sete (07) professores, distribuídos em dois grupos. O
primeiro grupo era composto por quatro (04) professores que receberam estudos
oferecidos pelo MEN (2013),
por meio do programa "Bolsas para a excelência docente". O segundo
grupo era constituído por três (03) professores com formação diferenciada.
Foram selecionados de maneira intencional, para o que se estabeleceram
critérios específicos.
Neste discorrer, aprofundou-se nos
referenciais de qualidade, na educação rural e no discurso do professor. Os
referenciais de qualidade porque neles se estabelecem os eixos norteadores
tanto epistemológicos quanto pedagógicos vinculados à educação rural. Esta tem
importância de enfrentar como se articula na estrutura social e econômica, uma
vez que se faz necessário analisar os mecanismos pertinentes que se vinculam às
necessidades dos professores que trabalham na ruralidade. Por sua vez, no que
concerne ao discurso docente, faz-se referência ao processo comunicacional que
o professor inclui como parte da interação com seus alunos. Dessa forma, tanto
o discurso refere à maneira verbal, como a proxêmica e a linguagem não verbal
estão orientadas a mediar os processos de ensino e aprendizagem.
Os
referenciais de qualidade do Ministério da Educação Nacional
Nos primeiros anos de escolaridade, o MEN (1994) propõe orientações epistemológicas e
pedagógicas para o setor rural. Nesse contexto, o professor deve
familiarizar-se e dominar os textos que constam no currículo, para cumprir os
referenciais acadêmicos que visam o progresso na aprendizagem dos estudantes,
com o propósito de melhorar o aprendizado dos educandos.
Nesse sentido, é fundamental conhecer as
políticas educacionais específicas que dizem respeito às características do
setor rural. Com efeito, a Lei 115 (1994),
no Artigo 64, promove o fomento da educação camponesa. Para tais efeitos: …“o
Governo Nacional e as entidades territoriais promoverão um serviço de educação
camponesa e rural, formal, não formal e informal, sujeito aos respectivos
planos de desenvolvimento” (tradução da revista). Dessa forma, é necessário que se dê reconhecimento à importância de proporcionar
atenção às comunidades dispersas, característica frequente no setor rural. Isso
deve ser feito por meio da educação. Ao mesmo tempo, para a educação rural,
fomentam-se mecanismos que permitam o acesso à educação com tratamento especial
(Legislação Mexicana, 2022).
No entanto, embora o Estado promova a formação de educadores rurais, persiste
uma dívida quanto a oferecer uma educação global e equipada com ferramentas
tecnológicas específicas para cada população.
Nesse contexto, para avançar na atenção à
educação rural, nas diretrizes curriculares de Língua Castelhana, o MEN (1998) apresenta os referenciais de qualidade, os
quais estão vinculados ao espírito e propósito contidos na Lei 115 de Educação (1994). Essas diretrizes oferecem orientação
curricular e pedagógica, baseada nas abordagens de diversos teóricos que
orientam o fazer do educador. O documento se estrutura em cinco capítulos, os
quais, sucintamente, são especificados a seguir:
No primeiro capítulo, reflete-se sobre a
importância da interação constante com os textos para que o sujeito se aproprie
da informação. Nesse processo de mediação, o docente encontra estratégias que
facilitem a compreensão do discurso.
No segundo capítulo, está desenvolvida a
organização do currículo, pois propõe um ensino guiado por projetos. Já no
terceiro capítulo, aprofunda-se o conceito de linguagem, apoiado em teorias
específicas. Essa estrutura propõe o desenvolvimento de competências
comunicativas na conceituação (ler, escrever, falar e ouvir).
O capítulo 4: “As diretrizes curriculares
de Língua Castelhana” focam no ensino da leitura e da escrita, fazendo uma
aproximação à construção de processos do código alfabético. Segundo o MEN (1998), propõe-se o desenvolvimento de sistemas
significativos que favoreçam o pensamento sobre como a criança compreende e
escreve sobre seu ambiente com sua própria grafia. A partir de sua produção
escrita, a criança, com sua própria produção, aproxima-se da grafia
convencional, identificando-a em todos os textos. Com o tempo, essa grafia
torna-se parte de seu conhecimento e ela a internaliza. O professor conhece
como se desenvolvem as grafias, cria planos, metodologias e estratégias
sustentadas nas propostas de Ferreiro, Teberosky, Rincón e Villegas (como
citados no MEN, 1998).
Enquanto isso, no eixo cinco, fazem-se considerações sobre o desenvolvimento do
pensamento. Essa aproximação fundamenta-se na abordagem de Vygotsky para
potencializar a aprendizagem com experiências ativas.
O ensino da leitura e da escrita está
contemplado nas Diretrizes Curriculares de Língua Castelhana do MEN (1998). Em princípio, espera-se que os
professores conheçam essas diretrizes no momento de realizar os planejamentos e
adequar as estratégias em congruência com os postulados estabelecidos para
orientar a leitura e a escrita. No entanto, na prática, observa-se que, apesar
de muitos educadores dominarem as diretrizes curriculares e a fundamentação
teórica relacionada a essas áreas, ainda enfrentam dificuldades para articular
esse conhecimento com sua prática. Em consequência, o desenvolvimento das
competências em leitura e escrita fica reduzido a um cumprimento superficial
dos conteúdos, sem avaliar realmente o progresso do estudante. Essa abordagem
impede que se cumpra a teleologia estabelecida no currículo, especialmente no
que se refere ao desenvolvimento dessas competências nos primeiros anos da
educação primária.
Por outro lado, nos padrões básicos de
competência de Linguagem, o MEN (2006) propõe
o desenvolvimento de competências comunicativas, ou seja, ações que permitam ao
estudante comunicar-se e interagir eficazmente em seu ambiente social na
sociedade. Nesse sentido, os professores orientam os estudantes a tomar
consciência de seu contexto, fomentando assim ambientes escolares alfabetizados
e alfabetizadores. Desse modo, o professor não apenas transmite conhecimentos,
mas também oferece ao estudante ferramentas para enfrentar sua própria
aprendizagem. E aqui se dispõe como fundamento a teoria da acomodação da fala,
de Giles et al. (1973: 189),
os quais expressaram:
Observou-se que a acomodação linguística é
mais do que um processo dicotômico, pelo menos nesta situação experimental.
Alguns participantes do grupo de controle estavam preparados para alternar
entre os dois idiomas, deslocando assim a ênfase de um código para outro (um
fenômeno semelhante às modificações observadas na correspondência de respostas).
(tradução da revista)
O exposto converge para a ideia fundamental
de que a comunicação humana é dinâmica e ativa. Portanto, quando o falante
realiza o ato acomodativo de sua fala, não se trata apenas de escolher um
critério linguístico, mas ele estabelece um vínculo e uma espécie de sintonia
que o leva a proporcionar uma resposta adequada, conforme a vivência com o
ambiente.
Por outro lado, assume-se também a
abordagem sociocultural de Bourdieu e Passeron (2008), orientada a fortalecer a comunicação dentro da sala de aula, mas que
supere o simples e plano ato relacional de interação. Assim, apontam Bourdieu e Passeron (2008: 63) que:
Reduzir a relação de comunicação pedagógica
a uma pura e simples relação de comunicação impede compreender as condições
sociais de sua eficácia propriamente simbólica e propriamente pedagógica, que
consistem precisamente em ocultar o fato de que não é uma simples relação de
comunicação. (tradução da revista)
Da mesma forma, é oportuno considerar que a
política educacional, segundo Reyes (no MEN, 1998: 48), propõe uma alfabetização por meio de diretrizes mediante as quais se
propõe …“uma alfabetização centrada em quatro competências (leitura, escrita,
oralidade e escuta)” (tradução da revista). No entanto, transferir essa teoria para a prática em contextos rurais
implica adaptar-se a múltiplos desafios. Por exemplo, em muitas escolas rurais,
não há acesso suficiente a materiais impressos nem conectividade digital, o que
limita o desenvolvimento das competências em igualdade de condições. Apesar
disso, os professores utilizam estratégias criativas para mediar os conteúdos.
Assim, o processo de alfabetização orienta-se pelos interesses e realidades do
sujeito, para desenvolver competências que vão além de um significado.
Sem dúvida, a formação em competências
literárias permite não apenas o desfrute e apreço pela cultura, mas também
fomenta a compreensão dos textos. Ademais, promove uma comunicação ética,
vinculada ao ambiente social e aberta ao diálogo, o que pode ser consolidado
mediante projetos de aula. Agora, as competências linguísticas, segundo os
padrões, reforçam o ensino, concretizado na leitura e na escrita. Isso se
alcança mediante a organização dos pensamentos para apresentá-los em palavras
que serão escritas e lidas.
Outro aspecto é a sequência e a coerência
no planejamento de aula, sujeitas às exigências requeridas pela mudança de um
currículo que conduza à melhoria da aprendizagem. Com essa finalidade, surge a
pergunta: que ações realistas o professor necessita ao implementar o ensino da
leitura e da escrita, incluindo os padrões? Ao responder à pergunta, afirmam Báez e D´ottavio (2019: 9): o professor requer ...“uma formação
profissional ao educador que possibilite ao educando o erro”. (tradução da revista). Embora seja certo
que as construções de exercícios contextualizados que expressam a realidade
possibilitem as competências (tal como plasmado nos padrões), ainda assim, o
professor precisa analisar, compreender e executar as competências
correlacionadas com textos que reflitam a realidade do estudante.
Um aspecto-chave é a sequência e coerência
no planejamento da aula, alinhada com as mudanças curriculares que buscam
melhorar a aprendizagem. Isso levanta a pergunta: que ações concretas o
professor deve tomar para implementar o ensino da leitura e da escrita,
integrando os padrões? Segundo Báez e D´ottavio (2019), para isso, o professor deve receber uma formação profissional que permita
ao educando aprender com os erros. Desse modo, a construção de exercícios
contextualizados, que refletem a realidade do estudante, facilita o
desenvolvimento das competências. No entanto, o professor deve analisar,
compreender e aplicar essas competências de maneira adequada para que os textos
trabalhados sejam relevantes para os estudantes.
Em conclusão, é necessário aprofundar na realidade educativa que transcorre
e se desenvolve no meio rural e na preparação específica dos professores que
trabalham nesses contextos. É fundamental que os educadores que apoiam os
estudantes nesse meio contem com uma formação especial em teorias pedagógicas.
Em consonância com isso, Ferreiro (1944: 86)
aprecia que:
Aprender teoria da pedagogia rural ou
teoria da sociologia rural é fácil e se encaixa perfeitamente nas
possibilidades de qualquer estudante. Mas, concretizar essa teoria na prática
do viver é muito diferente. A “ruralização” do professor é um problema de
adequação ao ambiente; é uma questão de formação social, não intelectual. (tradução da revista).
Do exposto, pode-se dizer que o verdadeiro desafio da pedagogia rural não
se funda exclusivamente na aprendizagem intelectual de teorias sobre a
ruralidade — como as da sociologia ou da pedagogia rural —, mas na capacidade
do professor de encarnar essas teorias em seu ato pedagógico cotidiano.
Internalizá-las contribuirá para que a aprendizagem se torne mais acessível ao
neocognoscente; contudo, traduzi-las em modos de vida, sensibilidade e relação
com o ambiente rural exige uma transformação muito mais profunda. A expressão
“ruralização” do professor, por sua vez, torna-se um processo de adequação ao
ambiente que transcende o conceitual e se apoia no vivencial, no enraizamento
ético, na parte afetiva e cultural própria do ambiente rural. Não se trata apenas
de saber sobre o campo, mas de habitá-lo e vivê-lo com sentido; é preciso
compreender seus tempos, suas resistências e suas formas de produção simbólica,
bem como qual é o “modus vivendi” de seus estudantes e seus pais. Nesse
sentido, a formação do professor rural é, antes de tudo, um processo de
formação social, não meramente intelectual, no qual o pedagógico se entrelaça
com o humano.
A educação rural
Incursionar no estudo da educação rural, nestes tempos —
como tem sido há anos — é uma tarefa ingente, necessária e importante. Vários
autores têm investigado essa visão de manifestar que a educação que se
desenvolve no meio rural tem tanto valor quanto a educação que se desenvolve no
meio urbano. Assim, assinala-se com Barba (2011, como citado em Santamaría-Cárdaba e Sampedro Gallego, 2020: 153): que …“a escola rural como uma realidade diferente e
como um foco de propostas de inovação educativa que vão dando resposta às suas
próprias necessidades” (tradução da
revista). E, a partir dessa
resposta singular às necessidades, a educação rural também tem seu impacto na
equidade educativa, pelo que os professores enfrentam desafios estruturais para
a incorporação de estratégias pedagógicas que estejam adaptadas às necessidades
e interesses dos estudantes e da comunidade nesses contextos rurais.
Em correspondência com isso, é preciso dizer que a
educação rural enfrenta múltiplos desafios, pois a infraestrutura
institucional, na maioria das vezes, não está adaptada aos requisitos
pedagógicos exigidos para acolher os aprendizes e o professor. Além disso, os
docentes que exercem a atividade educativa devem ter uma sensibilidade
diferente e uma disposição para transformar os processos, uma vez que, muitas
vezes, a formação docente recebida não os prepara para compartilhar
conhecimentos e provocar uma aprendizagem significativa nos estudantes do meio
rural. Segundo Santamaría-Cárdaba e Sampedro Gallego
(2020: 148): …“a escola rural sofre
a mesma marginalidade econômica e simbólica do meio rural, mas tem grandes
potencialidades como espaço de inovação pedagógica e como instituição
dinamizadora das comunidades rurais” (tradução
da revista). Essa abordagem
ressalta a necessidade de políticas educativas que reconheçam a especificidade
desses ambientes e promovam estratégias adaptadas.
Por sua vez, Mendoza-Ponce (2024:
151) assinala que … “ainda existem
lacunas intransponíveis entre a educação urbana e a educação rural, dadas as
desacertadas políticas educativas tanto no Peru como em outros países” (tradução da revista). Essa análise evidencia a urgência de desenvolver
propostas que respondam às necessidades dos estudantes rurais e fomentem a
revalorização de suas culturas e costumes, com o propósito de impulsionar o
maior grau de equidade para os estudantes do meio rural.
Em congruência com isso, valoriza-se o contributo de Carrero Arango e González Rodríguez (2016: 81), que referem:
No meio rural, o serviço educativo tem sido influenciado
pelas condições socioeconômicas, culturais e de infraestrutura das populações
rurais. Em termos gerais, pode-se descrever uma escola no meio rural como um
estabelecimento pobre, deteriorado, com pouca dotação e mobiliário pouco
funcional, condições que fazem com que sejam vistas como pouco interessantes e,
desse mesmo modo, o Estado e as políticas esquecem o meio rural. (tradução da revista).
Dessa ótica, é preciso assinalar que os espaços nessas
salas de aula são reduzidos, o que dificulta o ensino a grupos de diferentes
idades e níveis de aprendizagem. Da mesma forma, a falta de meios tecnológicos
adequados representa uma barreira significativa para implementar as políticas
educativas de qualidade nesses contextos. Então, numa consideração
psicoeducativa, Silva Zapata e Rodríguez Bedoya (2022: 6) destacam a importância da cognição situada na
educação rural, afirmando que:
É assim que a educação rural atualmente no panorama
latino-americano se gesta sob uma realidade complexa, pois muitos dos modelos
pelos quais se realiza o processo ensino-aprendizagem não integram de maneira
assertiva a promoção de elementos necessários nas dimensões de participação das
práticas educativas juntamente com a construção individual e social no contexto
de desenvolvimento de todas as comunidades rurais. (tradução da revista).
Essa abordagem sugere que a educação rural deve integrar
metodologias que respeitem a identidade cultural e as dinâmicas comunitárias.
No âmbito dos recursos didáticos, o educador do contexto rural enfrenta um
trabalho com várias turmas de diferentes idades numa mesma sala. Diante dessa
realidade, o professor precisa delimitar metodologias flexíveis que convidem ao
trabalho em equipe entre pares, com ambientes que estimulem os estudantes a
refletir sobre suas próprias ações no desenvolvimento das tarefas.
Nesse sentido, é oportuno citar Terigi
(2013: 1), que assinala:
…as escolas rurais oferecem a oportunidade de estudar a
dinâmica das aprendizagens que se produzem quando os conteúdos transbordam a
sequência graduada e quando crianças (…) que se encontram em diferentes pontos
de sua escolarização interagem a propósito de um mesmo conteúdo. (tradução da revista).
Isso leva a concluir que, em contextos de ensino rural, a
aprendizagem é potencializada mediante a colaboração entre pares, onde o mais
avançado pode ensinar o menos avançado e potencializa a experiência educativa.
Isso se vincula ao atributo estabelecido por Contreras-Colmenares
(2004: 451-452), que denominou:
coetaneidade.
[Dito atributo] (…) tem a ver com a existência de
mediadores dentro da sala de aula que são contemporâneos e têm as mesmas
necessidades e interesses: ou seja, são alunos, em processo de aprendizagem,
mas que avançaram mais do que outros. Daí que seus pares sintam mais confiança
para se dirigir a eles e não aos adultos que os rodeiam. (tradução da revista).
Do exposto, pode-se dizer que a coetaneidade na sala de
aula apresenta uma dimensão relacional e afetiva ao processo de aprendizagem,
baseada na proximidade geracional e no reconhecimento entre pares. A
coetaneidade, como princípio educativo, implica que a interação entre alunos
que compartilham tempos formativos gera um espaço de aprendizagem mais
acessível, dinâmico e colaborativo. Dado que se trata de outros estudantes, que
são colegas, que avançaram mais no processo, mas conservam uma proximidade cognitiva
com os demais; então, estabelece-se uma mediação horizontal, em contraste com a
tradicional relação vertical entre docentes e estudantes.
Numa perspectiva socioconstrutivista, isso se vincula com
a aprendizagem que ocorre em um ambiente social, e o conhecimento se constrói
através da interação com outros, especialmente com aqueles que se encontram em
uma zona de desenvolvimento proximal (Vygotsky, 1978). Com essa visão, na coetaneidade os alunos mais
avançados não impõem o conhecimento, mas facilitam o acesso a ele a partir de
uma posição de pares acessíveis, gerando confiança e reduzindo a lacuna
cognitiva.
Essa facilitação da aprendizagem pelos coetâneos terá
maior potência na medida em que se realiza nas escolas multisseriadas, esquema
muito particular das escolas rurais. Esse modelo é comum em zonas rurais e
comunidades com baixa densidade populacional, onde a distribuição de alunos não
permite uma organização tradicional por séries/anos. Em princípio, é preciso
assinalar que as escolas multisseriadas são consideradas instituições
educativas nas quais um mesmo docente ensina estudantes de diferentes níveis em
uma mesma sala.
A respeito, Terigi (2013: 1) expressa: “O multisseriado ou plurisseriado (tecnicamente
denominado seção múltipla na Argentina) é uma seção escolar que agrupa alunos
que estão cursando diferentes séries de sua escolaridade primária de forma
simultânea com um mesmo professor” (tradução
da revista). De acordo com o nível,
essas escolas multisseriadas podem atender alunos de pré-escola, educação
básica e até mesmo o ensino secundário. Outra visão definicional é fornecida
por González Lira et al. (2021: 352,), que referem: …“as escolas multisseriadas são aquelas
onde os docentes ou figuras educativas atendem a estudantes de diferentes
séries em uma mesma sala” (tradução da revista).
A partir de diversas investigações, é preciso comentar
que:
…o interesse pela reivindicação do multisseriado como uma
modalidade educativa que apresenta importantes vantagens pedagógicas sobre as
escolas seriadas, sob a premissa de que esta forma de organização escolar pode
ser utilizada em qualquer situação educativa e não apenas por imposições
administrativas, já que em sua dinâmica se configuram comunidades de
aprendizagem. (González Lira et al., 2021: 352 tradução da revista).
Como bem se expressa, esta característica particular da
educação rural, não obstante que costumam contar com recursos limitados, como
material didático ou, em alguns casos, cartilhas que apresentam informações
desatualizadas e descontextualizadas, contudo, tem algumas prerrogativas ou
vantagens do ponto de vista pedagógico.
Com esse critério, é importante assinalar também que, nos
últimos treze (13) anos, na Colômbia foram implementados vários projetos em
educação focados na melhoria da educação do setor rural. Um desses esforços é o
Projeto de Educação Rural (PER), que começou a ser executado no ano de 2009 (MEN, 2009), com o qual o órgão
reitor da educação tem buscado ampliar o acesso a uma educação de qualidade
desde o nível pré-escolar até o ensino médio. Entre suas estratégias,
destaca-se a inclusão de recursos como a mala de jogos, para fortalecer os
processos de leitura e escrita de maneira lúdica. E segundo o MEN (2009: 1):
O objetivo do programa é incrementar o acesso com
qualidade à educação no setor rural desde a pré-escola até o ensino médio,
promover a retenção de crianças e jovens no sistema educativo e melhorar a
pertinência da educação para as comunidades rurais e suas populações escolares,
com o fim de elevar a qualidade de vida da população rural. (tradução da revista).
Da mesma forma, outra estratégia implementada tem
sido o Programa Todos Aprendem (PTA), em funcionamento desde o ano de 2012, que
tem como objetivo melhorar a qualidade do ensino e os níveis de aprendizagem no
ensino fundamental, por meio de ações de acompanhamento ao professor do ensino
fundamental. Dito programa é uma tática de grande escala formativa e também de
acompanhamento aos professores que estão trabalhando nas instituições
educativas da Colômbia, tanto para os que trabalham no meio rural quanto para
os que trabalham no meio urbano (MEN, 2022).
Agora, apesar desses avanços, ainda é necessário
que essas políticas reconheçam as particularidades do trabalho em salas de aula
multisseriadas. Torna-se urgente incluir espaços de formação; os programas
governamentais precisam incluir a formação específica aos professores de
escolas multisseriadas que trabalham no meio rural. E, nessa capacitação, devem
ser incluídas orientações singulares e específicas sobre como se promovem os
processos fundamentais da leitura e da escrita.
Nesse sentido, é necessário repensar uma política
educativa que dialogue com a realidade da educação rural. Isso implica
transformar a formação dos educadores, propondo metodologias ajustadas aos
contextos remotos, com um discurso pedagógico que respeite o modo de vida e os
saberes próprios dessas comunidades para o ensino da leitura e da escrita. Além
disso, executar as intervenções didáticas considerando os desafios que esses
contextos têm, com acompanhamentos que ajudem no avanço dos processos de
conhecimento.
Expectativas e realidade da
formação docente no setor rural
Para falar de formação docente, é preciso, neste
aspecto, que o educador não apenas conheça os saberes que vai ensinar, mas
também reflita sobre como leva esses conhecimentos à interação com o educando,
para que a aprendizagem seja ótima no contexto rural. Da mesma forma, saber que
o ensino no setor rural colombiano ocorre em turmas multisseriadas. Assim, o
docente conhece o contexto e as afetações que o ensino sofre. Além disso, o
educador deve considerar como o estudante lê sua realidade tomando como referência
o ambiente rural. Deve-se levar em conta o disposto na Lei
115 (1994), uma vez que no Artigo
1º dispõe: "A educação é um processo de formação permanente, pessoal,
cultural e social que se fundamenta numa concepção integral da pessoa humana,
de sua dignidade, de seus direitos e de seus deveres". Essa precisão requer
ser assumida também durante o processo de formação daqueles que atuarão como
docentes. Mas, igualmente, deve-se contemplar que a formação permanente,
contínua ou desenvolvimento profissional deve ser uma ação própria e coerente
do Estado. Tudo isso com o propósito de apoiar a atividade do docente tanto no
processo de ensino quanto no de aprendizagem.
Por isso, é necessário investigar três aspectos
relacionados à formação dos docentes em localidades dispersas. Em primeiro
lugar, é fundamental analisar como se implementa a política educativa do
Ministério da Educação Nacional (Colômbia). Em segundo lugar, é necessário
conhecer como as universidades formam os docentes para ensinar em comunidades
rurais. Por último, deve-se investigar o que acontece na prática de ensino do
educador de turmas multisseriadas. As respostas a esses questionamentos devem
ser objeto de investigação constante e de interesse permanente para os
pesquisadores, pois são essenciais para aqueles que se dedicam ao estudo da
educação, especialmente no âmbito rural, e em processos fundamentais como o
ensino da leitura e da escrita nos primeiros anos de escolaridade.
A educação do setor rural é de grande importância
para o desenvolvimento da sociedade. Portanto, é necessário um povo mais
reflexivo que vincule o conhecimento para contribuir no desenvolvimento da
economia. No entanto, nesse contexto observa-se uma grande lacuna educativa,
pois a formação do docente de turmas multisseriadas pouco favorece a formação
de um sujeito analítico que proponha soluções para situações na sociedade.
De acordo com o relatório sobre o nível educativo
dos docentes do setor rural apresentado pelo Banco da República na Colômbia,
muitos dos educadores são profissionais (diplomados, carreira pedagógica e
pós-graduação). No entanto, apesar de terem uma formação acadêmica, surge a
pergunta: como as universidades formam o educador, pois ainda persiste a lacuna
na educação rural? Para abordar essa problemática, as universidades precisam
repensar seus programas e criar um perfil mais crítico, analítico, que se concentre
em ensinar a leitura e a escrita em contextos rurais.
O órgão reitor da educação precisa proporcionar uma
formação aos docentes no desenvolvimento de competências para ensinar no setor
rural. Da mesma forma, diante da diminuição de docentes habilitados, foram
incorporados à atividade educativa profissionais de outras disciplinas. Entre
elas podem-se mencionar: engenheiros, advogados, economistas, cuja formação
básica está muito distante do pedagógico e, portanto, têm dificuldade para
trabalhar com múltiplas séries no setor rural. Essa situação gera dificuldades
na hora de trabalhar com múltiplas séries, pois a falta de formação específica
em educação limita a capacidade dos novos docentes de se adaptarem às
particularidades do setor rural.
Há, então, que precisar que a formação docente na
Colômbia se encontra numa encruzilhada; de certo modo está presa entre uma
tensão que emerge através de um discurso modernizador e umas estruturas que
resistem à mudança. O perfil do docente reflexivo, inclusivo e tecnologicamente
competente choca frontalmente com uma realidade de formação teorizante. Há,
pois, condições laborais precárias e existe uma desconexão com os diversos
contextos do país.
De modo que superar essa lacuna, essa fissura,
poder-se-ia dizer essa ocosidade existente, não é uma tarefa menor e, portanto,
exige mais do que meros ajustes curriculares. Exige, antes, uma política de
Estado, que seja integral e que aposte na dignificação da profissão docente,
através de melhores salários e condições de trabalho. Com tal política estatal
deve-se prever um orçamento para que ocorra um investimento decidido que se
reverta em qualidade educativa e pertinência dos programas de formação inicial
e contínua. Da mesma forma, que se advogue por um sistema de avaliação que seja
caracterizado por uma visão genuinamente formativa e que não seja punitiva ou
sancionadora. Somente na medida em que se alinhe o estado desejado ou dever ser
com as possibilidades reais que contém o ser, somente nessa medida se poderá
impulsionar o imenso potencial transformador que reside nos mestres e mestras
da Colômbia. E assim os converterá nos verdadeiros artífices e pedra angular de
uma sociedade que aponte para ser mais justa, equitativa e em paz.
A figura do docente é um pilar fundamental na
construção de qualquer projeto de nação. Na Colômbia, um país caracterizado por
profundas desigualdades sociais e um anseio histórico de paz, o papel do mestre
adquire uma dimensão muito mais importante e crucial. Nesse contexto, as
políticas públicas e o discurso acadêmico configuraram um perfil do
profissional da educação que tende a ser muito ideal, mas que está distante da
atuação e da formação que recebem. Tal situação está marcada pela preocupação.
É assim, pois a revisão da literatura em diversos informes revela uma
significativa distância entre esse constructo normativo e a prática permanente
e cotidiana do docente, derivada da formação recebida.
Ao fazer revisão da literatura, pôde-se encontrar
na normativa vigente, vinculado ao critério acadêmico, um perfil docente
multifacetado e altamente exigente para os docentes da Colômbia, que está
centrado em três elementos essenciais. São eles:
a) O docente como intelectual e profissional
reflexivo: Longe de ser um executor
ou aplicador de programas curriculares, o ideal que se deve assumir há de ser o
de formar um profissional autônomo que investiga sua própria prática (Schön, 1983). Ao realizar essa
investigação, pode o docente transcender da prática pedagógica para a práxis
pedagógica e para a metaprática (Contreras-Colmenares, 2021), que se torna uma progressão desde a prática
pedagógica. Então, espera-se que o docente analise criticamente seu fazer
pedagógico e desse modo gerará conhecimento e aprendizagem situada a partir da
sala de aula e participará ativamente em comunidades de aprendizagem para
transformar seu ambiente educativo.
b) Agente de inclusão, paz e transformação social: Em consonância com os desafios do pós-conflito e
da diversidade inerente ao país, espera-se que o docente seja um mediador
cultural e um promotor da equidade. Dessa maneira, a formação do docente deve
dotá-lo de ferramentas para gerir a heterogeneidade de pensamento e interesses
que ocorrem na sala de aula; da mesma forma, é obrigatória a inclusão de
estudantes com necessidades educativas especiais e deverá desenvolver
competências socioemocionais que fomentem a convivência e a construção de uma
cultura de paz, com o que se transcende o que ocorre no espaço escolar,
impactando a comunidade. Com respeito à cultura de paz, Sánchez
Cardona (2016: 64, tradução da revista) manifesta
que:
Falar de uma cultura para a paz tem seu grau de
dificuldade, pois é necessário primeiro definir em que marco de referência se
situa o conceito de cultura e a partir disso, proceder a desenvolver o que se
entende por paz e, consequentemente, contextualizar a teoria da cultura de paz
em um país determinado.
Essa complexidade deve ser valorizada para efeitos
de poder situar em um contexto específico, que se vive na Colômbia, para poder
entender, em primeiro lugar, a paz, a partir das situações de conflito, com o
que se chegará à compreensão da cultura de paz.
c) O docente há de ser um especialista em competências
do século XXI e mediador tecnológico: O
discurso de supremacia, superioridade, preeminência e hegemônico preponderante
demanda um docente capaz de formar cidadãos para um mundo globalizado e
digital. Isso implica não apenas seu próprio domínio do pensamento crítico, da
criatividade e da colaboração, mas também a habilidade para integrar as
Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Dessa forma, se formará um
docente que poderá desenvolver seu ato pedagógico de relevância. Assim se
superará sua aplicação única como instrumento para converter as TIC em
verdadeiros recursos didáticos de mediação que contribuam na construção da
aprendizagem significativa.
Em congruência com isso, a formação docente no
setor rural colombiano enfrenta desafios estruturais que afetam a qualidade
educativa e a preparação dos mestres para responder às necessidades de suas
comunidades. As expectativas costumam centrar-se na criação de programas
adaptados à ruralidade, com abordagens que integrem conhecimentos locais,
estratégias pedagógicas contextualizadas e o fortalecimento da identidade
profissional dos docentes. No entanto, a realidade mostra que a maioria dos
programas de formação está desenhada para contextos urbanos. Deixa-se e
desconsidera-se a formação para os docentes que trabalharão no meio rural. A
isso se soma que os profissionais de diversas profissões que são incluídos na
docência terão maiores dificuldades para enfrentar o ensino das comunidades de
educação rural.
O discurso dos professores rurais no ensino da leitura e da escrita
Deve-se partir de uma definição singular acerca do
discurso. Nesse sentido, assume-se o critério definicional de Van Dijk (1997: 22) proporcionado da
seguinte maneira: …“o termo 'discurso' se aplica a uma forma de utilização da
linguagem, a discursos públicos ou, mais geralmente, à linguagem oral…”. (tradução da revista).
Nos cenários rurais, o trabalho docente ultrapassa
a simples transmissão de conhecimentos e se torna um ato comunicativo
profundamente humanizante e transformador. O discurso do docente, neste
contexto de ruralidade, não deve ser neutro. O docente, portanto, deve
participar ativamente na construção de significados, na configuração de
imaginários e na dignificação das comunidades rurais. De modo que, sob essa
ótica, o discurso docente em contextos rurais deve integrar teorias e
pedagogias que reconheçam sua dimensão contextual, dialógica, afetiva e
transformadora. Nesse sentido, deve-se repensar o papel do docente nesses
espaços de ruralidade.
Sempre se considerou que, dentro da sala de aula, o
docente, em geral, é quem modera ou dirige a execução das ações e orienta sobre
as estratégias que devem ser realizadas. Portanto, lhe é atribuído um papel
altamente ativo. Desse modo, considera-se um guia dos processos que se
desenvolvem na sala de aula. Nesse sentido, o tipo de comunicação que o
professor estabelece na sala de aula define seu papel docente. Segundo Cabrera Cuevas (2003: 17): "O professor tem
o poder de definir um discurso quanto à sua relação comunicativa. [Portanto]
seu tipo de comunicação predominante vincula-se a um papel de condutor de
conteúdos ou de guia de aprendizagens". (tradução da revista).
Em correspondência com esse critério, Vygotsky
(1985, como citado em Patiño Garzón, 2007: 58):
…atribui um significado especial às relações
existentes entre os participantes de um processo no que se refere ao
desenvolvimento e à aprendizagem, por sua repercussão no diagnóstico das
capacidades intelectuais e na elaboração de uma teoria do ensino que abre uma
nova perspectiva de atuação. (tradução da revista).
Isso implica que o contexto de interação entre os
integrantes de uma comunidade de aprendizagem, influenciados pelo papel que
desempenha o docente, pode, de alguma maneira, apoiar ou restringir a
reflexividade e a construção colaborativa da aprendizagem entre todos os atores
da sala de aula. Indubitavelmente, nisso tem grande impacto o discurso do
docente durante o processo mediacional.
Agora, o discurso do docente é muito mais do que a
simples transmissão de conteúdos. Trata-se, antes, de um ato comunicativo
urdido de intenções, afetos e significados que constrói um espaço de encontro
humano. Van Dijk (1999), por exemplo, considera que o discurso, em geral, é,
além disso, um ato de poder e de construção da realidade. Por conseguinte,
implica que o docente, com suas palavras, não apenas proporciona informação,
pelo contrário, em muitos casos, modela imaginários e configura relações de
poder. Assim, …“o discurso está concebido como 'as complexas estruturas e
estratégias do texto e da conversação tal como realmente são levadas a cabo
(produzidas, interpretadas, utilizadas) em seus contextos sociais'” (Van Dijk, 1999, p. 251, tradução da revista).
Então, assim o discurso, entendido para além de sua
dimensão linguística, constitui, pois, uma prática social situada que modela e
reflete as estruturas de poder e as relações culturais que atravessam toda
interação comunicativa. Segundo o mesmo Van Dijk (1999), o discurso não deve ser concebido como uma forma
transmissiva de conteúdos ou mera transmissão de informação neutra. O discurso,
então, é valorado como uma forma de ação social que organiza e legitima
significados, reproduz ideologias e constrói realidades compartilhadas. Essa
perspectiva crítica sustenta-se na premissa de que os discursos possuem uma
macroestrutura – a organização global dos temas e das ideias principais – e
também uma microestrutura – a seleção lexical, os recursos retóricos e os
matizes de significado –; ditas estruturas (macro e micro) interagem na
configuração de um ato comunicativo com potencial transformador.
Nesse sentido, o discurso do docente,
particularmente no meio rural, deve ter clareza e consciência de que não apenas
comunica conteúdos acadêmicos, mas também media entre as culturas e tem a
capacidade de visibilizar ou silenciar os saberes locais. Assim, o discurso
docente pode se tornar um ato caracterizado pelo poder, na medida em que
reforça relações verticais e desconhece a riqueza cultural da comunidade.
Agora, em caso contrário, pode ser tomado como um ato humano, humanizante e
dignificante, na medida em que reconhece e respeita a palavra, a fala, a voz do
estudante do meio rural. Sob essa ótica, valorizar-se-á sua identidade e
potencializar-se-á sua cultura e atos discursivos próprios do ambiente rural.
O discurso docente rural, portanto, deve, em
princípio, reconhecer e valorizar os saberes locais. Uma vez que os docentes
…“contribuem com isso não apenas seus conhecimentos acadêmicos, mas também seus
conhecimentos e saberes locais e regionais” (Dietz,
2010: 65, tradução da revista). Além disso, o discurso deve promover e
desenvolver a dialógica, o que poderá lograr na medida em que promova a
participação ativa de seus estudantes. E, por último, o discurso deve ser
marcado pela afetividade e com um profundo sentido de transformação no léxico,
sem perder sua marca e idiossincrasia contextual, signadas pela ruralidade. Com
o que promove a formação das identidades dos estudantes rurais, que incidem
favoravelmente em sua autoestima e sentido de pertencimento.
No meio rural, o discurso do docente reveste uma
significação ainda mais densa. Nesse meio, a sala de aula não está apartada,
isolada da vida comunitária, mas sim imbricada nas dinâmicas rurais e nas
cosmovisões locais. Como assinala Freire (1997), a educação deve ser um ato de diálogo autêntico, que
parta das condições reais dos estudantes e não de uma lógica urbana ou
tecnocrática que desconhece a riqueza do mundo rural. A respeito, Cruz Aguilar (2020: 197) expressa:
A concepção educativa de Freire é uma educação que
busca o pleno e autêntico desenvolvimento do outro, porque se constitui na
justa medida em que o outro se constitui; é um ato biofílico que busca o pleno
desenvolvimento da liberdade, do diálogo, da comunicação, do desenvolvimento
com e pelo outro. (tradução da revista).
Essa visão freireana consolida-se no que atualmente
se conhece como outridade e alteridade. Então, o discurso deve ser libertador e
promotor do diálogo e da autonomia do estudante. Sob esse prisma, é preciso
assinalar que se torna necessário compreender que o discurso do docente nos
espaços rurais deve ser concebido como um ato comunicativo contextualizado,
dialógico e situado. De maneira que nunca poderá ser um exercício discursivo
caracterizado pela neutralidade ou imparcialidade. Tem a própria carga subjetiva.
Portanto, deve-se interpretar que acarreta e contém decisões sobre o que e como
dizer, e essas decisões incidem diretamente na forma como os estudantes rurais
entendem e ressignificam seu mundo. Por conseguinte, é fundamental que o
discurso docente no meio rural promova uma prática dialógica, caracterizada
pela mediação cultural. Sob essa orientação, fortalecer-se-á a autoestima, a
participação, o respeito, a idiossincrasia e a dignidade dos estudantes do
âmbito rural.
Adicionalmente, no que tange ao discurso do docente
no meio rural em relação ao ensino da leitura e da escrita, torna-se
imprescindível referir que, nesse tópico, o discurso docente é um componente
essencial nos processos de ensino e aprendizagem. Dessa maneira, configura-se
um modo que permite aos estudantes interagir com a linguagem e assim
desenvolver habilidades comunicativas. Da mesma forma, o neocognoscente vai
gerar uma aproximação à produção textual e à compreensão da leitura, de modo
grato, significativo e com utilidade para seu agir na comunidade rural. Por
conseguinte, seu impacto transcende a sala de aula e se torna um fator
determinante na construção do pensamento crítico e na apropriação de práticas
leitoras e escriturais.
Portanto, a forma como os docentes estruturam seu
discurso influencia diretamente a compreensão leitora e a produção escrita dos
estudantes. Para isso, empregará estratégias como a reformulação, as perguntas
abertas e a conexão com saberes prévios, permitindo uma aproximação
significativa ao texto, fomentando a reflexão e a análise. Além disso, o ensino
da leitura não é apenas uma questão técnica, mas está inserido em dinâmicas
sociais e políticas que afetam sua implementação em diversos contextos.
No âmbito rural, por exemplo, o acesso limitado a
materiais adequados e a falta de formação específica em processos leitores
podem gerar dificuldades na apropriação do conhecimento. O que deve ser
remediado pelo docente mediante seu agir discursivo e a produção de recursos
significativos. E desse modo promoverá e consolidará a produção textual na sala
de aula. E, nesse teor, deverá superar a singular e específica ação
convencional de corrigir erros. Para isso, deverá utilizar mensagens de retorno
efetivas. Gerar a habilidade para argumentar com o discurso oral e realizar
análises de textos, a fim de consolidar as competências comunicativas e o
desenvolvimento de uma escrita com sentido e significado.
Finalmente, é importante valorizar que o discurso
docente que trabalha no meio rural não deve ser entendido exclusivamente como
um meio transmissor de saberes; esse discurso deve ser o modo como se promove a
formação de cidadãos críticos e reflexivos. Em suma, o discurso do docente do
meio rural, no que concerne ao ensino da leitura e da escrita, é fundamental,
decisivo e crucial para a formação de seres humanos capazes de interagir com o
mundo através da linguagem, com o que poderão se tornar, além disso, agentes de
transformação social. É a aspiração à qual tenderá o docente do meio rural,
pois com seu discurso será modelo para seus estudantes do meio rural.
Metodologia
No desenvolvimento do presente discorrer acadêmico,
sustenta-se na pesquisa realizada, sob a abordagem qualitativa, cujo propósito
esteve orientado a examinar os referenciais de qualidade propostos pelo
Ministério da Educação Nacional (Colômbia) selecionados e seu entrelaçamento ou
não no discurso dos mestres das instituições escolares do setor rural no ensino
da leitura e da escrita como parte da alfabetização. No que respeita à coleta
das informações, utilizou-se a técnica documental e, em congruência com isso,
realizaram-se leituras de: (a) os referenciais de qualidade do MEN (2022), especificamente as
diretrizes curriculares de Língua Castelhana e os padrões básicos de
competência de Linguagem com umas categorias de análise, para depois buscar o
entrelaçamento que se estabelece no discurso do mestre; (b) o plano de aula de
cada docente; (c) o perfil que a universidade oferecia na formação de Bolsas
pela excelência docente.
Em conclusão, a falta de alinhar o processo
formativo em consonância com as necessidades do setor rural no desempenho do
trabalho educativo limita gravemente a efetividade do ensino. Nesse sentido, Díaz Barriga (2019) sustenta que o docente
tem que reconstruir seu trabalho e fazer uma análise de sua formação. É certo
que o professor precisa transformar seu pensar, de modo evolutivo e consciente.
Portanto, deve transcender os métodos que têm se mostrado insuficientes em seu
processo de ensino e destacar-se com a inclusão de uma didática inovadora. Por
isso e para isso, é fundamental que o docente receba uma formação contínua. Ou,
em termos recentes, um desenvolvimento profesográfico, como uma
referencialidade ao processo de crescimento e formação contínua de um
profissional dentro de seu campo de ação. Esse processo diz respeito tanto às
habilidades, aos conhecimentos, quanto ao processo adaptativo às mudanças que
surgem no ambiente laboral.
É, pois, um processo de renovação, que depende da
vontade do docente para se adaptar à mudança contínua que ocorre na sociedade
do conhecimento. Atualmente, a inovação tecnológica leva o docente a ter que se
formar como sujeito autônomo e líder no ensino, pronto para as mudanças do dia
a dia, para não ser deslocado. Exemplo disso é a disrupção da Inteligência
Artificial (IA), a qual deve ser conhecida e dominada pelo docente, para apoiar
seus próprios processos e também os processos de aprendizagem de seus estudantes.
Essa situação requer um docente empoderado de sua profissão, que investigue sua
prática em sala de aula e integre grupos de pesquisa que contribuam para
aprofundar o como da didática da leitura e da escrita no multisseriado.
Por outra parte, deve-se informar que, no
desenvolvimento do presente artigo, integrou-se, de maneira reflexiva, o uso de
inteligência artificial generativa: Microsoft Copilot
(2025), Gemini, Google (2025) e Microsoft Copilot (2025) como ferramentas de apoio na organização de ideias, na
estruturação preliminar de seções temáticas e na exploração de possibilidades
discursivas. Essa colaboração não substituiu o exercício crítico nem a autoria
acadêmica, mas se enquadrou numa lógica de coconstrução que reconhece a
mediação tecnológica como uma possibilidade criativa e epistemicamente situada.
Pelo qual, o emprego dessa ferramenta se articulou
com uma atitude ética e reflexiva, privilegiando a validação dos conteúdos
propostos, o ajuste ao marco teórico selecionado e a coerência com a abordagem
pedagógica e metodológica do estudo. Nesse sentido, a IA foi utilizada como um
recurso complementar que permitiu enriquecer o processo de escrita acadêmica,
sem comprometer o rigor investigativo nem a singularidade do sentipensar dos
autores.
Resultados
sobre o discurso do docente rural na implementação dos referenciais de
qualidade: sua integração
Os docentes de territórios remotos, na
implementação dos referenciais de qualidade de Linguagem, focam-se no
desenvolvimento de competências necessárias para potencializar o ensino. Por
isso, nas práticas da leitura e da escrita, propiciam situações com uma
variedade de elementos específicos; isto é, fazem ajustes coerentes aos
conteúdos para que o educando pense e resolva situações de seu entorno. Então,
os contextos propostos levam o sujeito a analisar, compreender e utilizá-los
para a construção da competência.
Com respeito aos padrões básicos de qualidade de
Linguagem, focam-se no desenvolvimento de competências necessárias para
potencializar o ensino. Por isso, o docente na instrução da leitura e da
escrita propicia situações com uma variedade de elementos específicos, ou seja,
faz ajustes coerentes aos conteúdos para que o educando pense e resolva
situações de seu entorno. No que diz respeito aos ambientes de aprendizagem que
promovam a análise e a compreensão da leitura e da escrita para desenvolver a
competência.
Quanto à categoria de produção textual, as
competências desses processos são focadas no progresso das primeiras grafias.
Por isso, reconhece-se o som das letras e o propósito que este tem na
construção da palavra falada com a palavra escrita. Para isso, o docente estuda
as intervenções didáticas pertinentes no desenvolvimento das competências,
modifica-as e incorpora-as na aprendizagem. Assim, as práticas estão
direcionadas a potencializar, em ordem, a leitura e a escrita para serem
executadas com competência pelo educando (Kaufman,
2007).
A tudo isso, os escritos dos estudantes necessitam
que o docente dê importância aos saberes prévios (hipóteses) ao iniciar a
escrita, pois ao entender isso, traça-se uma sequência de intervenções
didáticas focadas em contribuir para a aproximação à escrita convencional.
Neste aspecto, considera Ferreiro (2010: 134): …“a questão é que escreva e conheça por experiência
própria que o escrever é um instrumento útil para se comunicar com os demais” (tradução da revista). Em outras palavras, o mestre rural precisa propor
dinâmicas nas quais o educando fale, expresse e promova uma competência de
comunicação em correlação com a escrita. Nisso, surge a inquietude: que
estratégias pode o mestre rural implementar? Em resposta ao questionamento, as
intervenções didáticas podem incentivar o educando à comunicação da escrita e
elucidar conceitos de um bom escritor.
Para conhecer a competência desenvolvida na
produção textual, assumiram-se os fragmentos de diálogos e o guia de
aprendizagem organizado coletivamente pelas docentes com formação própria.
MV2 S:
"enviam-se compreensões para casa, fazem-se chamadas para que a criança
leia, fazem-se perguntas sobre a compreensão de leitura que eles estão
fazendo."
MV2 S:
"Pedem que façam vídeos fazendo a leitura e respondendo às perguntas que
lhes são enviadas sobre a compreensão leitora do texto que lhes foi dado."
(tradução da
revista).
Em relação ao exposto, as participantes propuseram
diferentes estratégias para a produção textual. A respeito, ratifica Lerner (2001: 19): "Esse papel ativo
se expressa através do desdobramento de uma série de estratégias básicas" (tradução da revista). Isto é, estas são consideradas com intenção de
confrontar o educando com seus próprios argumentos. Em consequência, a docente
(MV2 S) na competência de expressão oral atuou em colaboração com a
família para que eles modelem a leitura ao educando. Talvez, os educandos falem
sobre ela e escrevam suas apreciações.
MJ.3 S:
"Digamos, vamos trabalhar o sapo. O sapo. Faço um conto que fale do sapo,
desenho o sapo, faço um fantoche do sapo. Que tudo vá focado no S. Que cantemos
a música do sapo. Que tudo aponte para o propósito do logro."
Por certo, na elaboração de textos escritos, a
docente (MJ.3 S) deu importância à escrita de fonemas de maneira
repetitiva, ou seja, a docente carece de interesse em conhecer como é o avanço
do educando; poder-se-ia dizer que na competência da comunicação correlacionada
com a escrita faltou propor a reflexão consciente desta.
No que se refere ao processo de produção textual,
tomou-se o guia de aprendizagem para conhecer o desenvolvimento deste. Então,
evidenciou-se o trabalho coletivo no recurso didático; ali propuseram
consolidar o som das vogais e conhecer diferentes fonemas com estas. Foi assim
que o ensino do conteúdo se apresentou com uma série de atividades sem
sequência nos processos. De fato, as ações careceram da construção com
significado no desenvolvimento das competências. Em suma, educar na produção
textual nos primeiros anos de escolaridade são processos com um ensino
consciente da intervenção da leitura e da escrita com uma variedade de
habilidades intencionadas na produção textual.
YS.4 M: "Não se facilita tanto, tem-se tido que
recorrer ao método silábico e tradicional" [métodos do primeiro ano].
YS.4 M: "Temos um projeto que se chama a escrita da
cozinha; trabalhamos com etiquetas. Ou seja, aquelas embalagens que as crianças
têm em sua casa."
YS.4 M: "A criança lê a etiqueta, temos um processo
de leitura de etiqueta e foi muito interessante. Isso agrada à criança, porque
ela tem em casa a embalagem da compra que seu pai faz." (tradução da revista).
Em concordância com o anterior, o docente do setor
rural, nas práticas de ensino nos primeiros anos de escolaridade da leitura e
da escrita, promove a reflexão na aproximação à construção das primeiras
grafias do educando. Para isso, o docente promove a escrita espontânea, sem
impor modelos ao educando (Ferreiro, 2010). Para nos aprofundarmos no tema, na pesquisa a
participante YS.4M,
na produção de textos, desenvolveu a competência da criação do discurso com
situações vivenciais (com a leitura de etiquetas). Embora seja um ato com
sentido para o educando, enfatiza-se sempre a leitura. De fato, a produção
textual careceu de ações para possibilitar a construção reflexiva da palavra.
Pois a docente se preocupou em ensinar um fonema, ou seja, o desenvolvimento de
processos da competência da escrita não se evidencia, assim como ocorreu com as
demais participantes.
Na pesquisa pôde
estabelecer-se que 100% das docentes com formação própria, durante o processo
de produção textual, apresentam uma desarticulação entre a leitura e a escrita.
Isso se deve a que têm deficiências nas estratégias didáticas que permitam provocar
no educando o desenvolvimento das intervenções didáticas para alcançar a
construção da escrita convencional. Quanto aos docentes com formação de bolsas
de excelência do MEN (2015), 100% dos docentes realizam
processos para que o educando realize a competência da compreensão da leitura,
mas no momento da construção textual apenas 50% promovem intervenções didáticas
para realizar esses processos. Agora, no que respeita à leitura e à escrita,
apenas 25% das participantes promovem no educando a análise para compreender o
sentido da construção da palavra escrita.
Da mesma forma, durante a investigação,
encontrou-se que o ensino da leitura e da escrita está incluído nas diretrizes
curriculares de Língua Castelhana do MEN (1998). Agora, infere-se que os docentes fazem um estudo
dessas diretrizes no momento de realizar seus planejamentos e adequar as
estratégias em congruência com os postulados estabelecidos para orientar a
leitura e a escrita. Porém, descobre-se em alguns educadores que, embora tenham
o conhecimento sobre as diretrizes curriculares, bem como a fundamentação
relacionada a essa prática, falta-lhes articular esses conhecimentos com a
prática em sala de aula. Por isso, o desenvolvimento das competências da
leitura e da escrita é dado para cumprir com uns conteúdos, sem considerar seu
logro ou progresso nos estudantes. Com o que não se está cumprindo a teleologia
estabelecida no currículo, no que corresponde ao desenvolvimento dessas duas
áreas da linguagem nos primeiros anos da educação primária.
O discurso do docente rural há de constituir uma
prática que considere as tensões existentes no contexto, tanto a historicidade
quanto o cultural. Então, frente aos referenciais de qualidade promulgados pelo
Ministério da Educação Nacional da Colômbia (1998), dito discurso não pode ser
lido como uma mera apropriação técnica, mas como uma mediação pedagógica que
reinterpreta, ressignifica e muitas vezes resiste aos mandatos padronizados.
Isso implica que o docente do meio rural deve se apropriar e transformar de
modo criativo as indicações que proporciona o MEN
(1998). E ao realizar essa transformação,
vai articular o saber pedagógico, o contexto e sua marca subjetiva. Assim se dá
término a esta dimensão relacionada ao discurso docente e aos referenciais de
qualidade do Ministério da Educação Nacional.
Finalmente, há que afirmar que o discurso do
docente que desenvolve seu ato pedagógico no meio rural deve assumir o
compromisso do que Moreno Fernández (1998: 155) denomina: "A acomodação ou adaptação da
fala". Nesse sentido, quanto à teoria: "A acomodação da fala se
preocupa pelos processos cognitivos que se produzem entre a percepção do
contexto social e a conduta comunicativa" (Moreno
Fernández, 1998: 155). É importante
compreender que o fundamento nesse critério teorizante é a interação
comunicativa que se realiza entre o falante e o ouvinte ou interlocutor. Isso
implica que o falante não apenas está vendo seu interlocutor, mas também
interpreta sua identidade percebida – idade, gênero, status, filiação grupal –
e também o marco situacional – formalidade, hierarquia, intimidade. Portanto,
em essência, refere-se a como os falantes ajustam sua maneira de se comunicar;
isto é, a adaptação de sua própria fala em função de com quem fala e do
contexto e da situação social em que ambos se encontram. Neste caso, o meio
rural. Essa interação será matizada e impulsionada por complexos processos
cognitivos.
Conclusões
O educador da escola rural deve planificar
e propor estratégias significativas e atrativas que impactem os educandos e
investiguem seus interesses, segundo o ambiente rural em que vivem.
Necessariamente, deve guiar-se pelas orientações que aparecem nos referenciais
de qualidade que o MEN desenvolveu. Dessa maneira, o educador do meio rural
poderá empoderar-se em cada um dos aspectos que aparecem vinculados ao ensino
da leitura e da escrita.
A formação docente é importante e
estabelece relevâncias que conectam sua formação com a disciplina, a teoria e
seu fazer pedagógico. Então, desenvolva intervenções didáticas de modo que, em
sala de aula, possam dar solução aos desencontros que ocorrem com respeito à
maneira como se realiza o ensino da leitura e da escrita desarticulada,
descontextualizada e fragmentada. Desse modo, essa ação enfatiza os aspectos
particulares da leitura e da escrita.
Os docentes rurais não são agentes passivos
na implementação de políticas educativas, mas sim se convertem em guias do
discurso que seus estudantes devem desenvolver. Portanto, há que reconhecer que
o discurso do docente é um ato de justiça epistêmica e política. Nesse sentido,
urge um olhar diferencial, dialógico e situado na construção das políticas
públicas educativas, especialmente em contextos rurais historicamente
marginalizados.
As políticas tendem a focar-se em padrões
universais que, embora necessários, correm o risco de homogeneizar processos
que requerem precisamente o contrário: diversidade, flexibilidade e sentido. O
caso do ensino da leitura e da escrita em zonas rurais demonstra isso
claramente: a aprendizagem ganha maior significado quando parte da experiência
da criança, de sua linguagem oral, de seu contexto, de suas perguntas. Promover
estratégias que deem valor aos saberes prévios e originem a escrita como forma
de comunicação.
Os docentes rurais necessitam reinterpretar
os referenciais de qualidade em sua prática educativa. Por isso, o MEN precisa
promover, com os educadores, espaços pedagógicos práticos para a reconstrução
dos referenciais de qualidade regionais que incluam o contexto cultural do
estudante e os ritmos próprios de aprendizagem. Esse exercício se torna uma
experiência que constrói políticas educativas contextualizadas à realidade.
A acomodação da fala, então, não é
simplesmente "mudar a forma de falar". É um processo dinâmico e
complexo que envolve como percebemos nosso ambiente social, como nosso cérebro
processa essa informação e como, em consequência, modificamos estrategicamente
nossa comunicação para alcançar certos objetivos interpessoais, seja para
construir pontes, marcar diferenças ou manter o status quo. É uma prova da
incrível flexibilidade e adaptabilidade da linguagem humana em sua interação
com a sociedade.
Finalmente, há que afirmar que o discurso
do docente é muito mais do que a simples transmissão de conteúdos. Antes,
configura-se como um ato comunicativo complexo, profundamente humano – não se
pode perder a dimensão humanista – que encarna uma pluralidade de dimensões:
cognitivas, afetivas, éticas e simbólicas. Nesse sentido, o discurso do mestre
– e mais ainda o do docente rural – é um ato no qual convergem não apenas
saberes pedagógicos, mas também intenções formativas, vínculos emocionais e
horizontes de sentido que se entrelaçam em cada interação com seus estudantes,
com o que lhe confere sentido e significado compreensível. Trata-se, antes, de
um ato comunicativo urdido de intenções, afetos e significados que constrói um
espaço de encontro humano.
Privacidade: Não se aplica.
Financiamento: Este trabalho não recebeu nenhum tipo de
financiamento.
Conflito de
interesses: Os
autores declaram não ter nenhum conflito de interesses.
Declaração
sobre uso de inteligência artificial: Os autores do presente artigo declaram que não empregaram Inteligência
Artificial em sua elaboração.
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Data de
receção do artigo: 20 de março de 2026
Data de
aceitação do artigo: 9 deabril de 2026
Data de
aprovação para diagramação: 13 de abril de 2026
Data de
publicação: 30 de junho de 2026
[1] Este artigo é um segundo avanço da investigação:
“Estratégias didáticas de leitura e escrita: um estudo interpretativo das
práticas de ensino dos professores da escolaridade no ensino fundamental nas
instituições escolares do setor rural do município de Rionegro
(Santander-Colômbia)”, desenvolvida durante o ano de 2023.
[*] Alba Lucía Barajas Lizarazo é licenciada
em Educação Infantil com ênfase em Arte e Lúdica. Especialista em Educação
Matemática. Mestra em Educação pela Universidade Industrial de Santander.
Doutora em Educação pela Universidade Nacional de Rosário (Argentina).
Atualmente é docente do ensino fundamental na Instituição Aguada de Ceferino,
município de Girón (Santander). E-mail: albalucia0369@yahoo.es
[†] Adrián Filiberto Contreras-Colmenares é
Professor Emérito da Universidade de Los Andes-Táchira. Categoria Titular.
Aposentado. Especialista em Gestão Pública, Menção Descentralização dos
Serviços Educativos. Especialista em Planejamento para o Desenvolvimento Rural.
Especialista em Direito Administrativo. Mestre em Educação, Menção
Administração Educativa. Doutor em Educação, Advogado. Pesquisador PEI. ULA.
Programa de Promoção do Pesquisador (PPI) nº 6263. Professor convidado dos
Programas de Mestrado e Doutorado de várias Universidades. Excoordenador de
Assessoria Jurídica da Diretoria de Cultura do Estado Táchira. E-mail: adriancontreras@ula.ve