A experimentação no ensino secundário: como formar habilidades científicas de ordem
superior?
La experimentación en secundaria: ¿cómo
formar
habilidades científicas de orden superior?
|
Omar Escalona Vivas[1] Instituto de Estudios Superiores de Investigación y Postgrado,
Venezuela. |
Víctor Bless Gutiérrez[2] Universidad de Ciencias Médicas de la Habana. Facultad de Tecnología
de la Salud. La Habana. Cuba. |
Resumo
Este artigo analisa como
a experimentação no ensino secundário contribui para a formação de habilidades
científicas de ordem superior (HCOS): pensamento crítico, resolução de
problemas, argumentação e formulação de hipóteses. Por meio de uma revisão sistemática
com metodologia PRISMA (2016-2026) em bases como Scopus, WoS, ERIC, SciELO e
Redalyc, foram identificadas sete categorias temáticas: andaime, ensino
baseado em estudos internacionais, resolução colaborativa de problemas,
design-construção-teste (cultura maker), formação STEM/STEAM, contextualização
da aprendizagem e espaços de intercâmbio reflexivo. Os achados revelam que a
experimentação por si só não desenvolve automaticamente as HCOS; é necessário
um andaime docente explícito, orientação pedagógica, contextualização
significativa e oportunidades de argumentação. A falta de formação docente e de
infraestrutura na América Latina limita esse potencial.
Palavras-chave: experimentação,
habilidades científicas de ordem superior, ensino secundário, andaime, revisão
sistemática.
Resumen
Este artículo analiza
cómo la experimentación en educación secundaria contribuye a la formación de
habilidades científicas de orden superior (HCOS): pensamiento crítico,
resolución de problemas, argumentación y formulación de hipótesis. Mediante una
revisión sistemática con metodología PRISMA (2016-2026) en bases como Scopus,
WoS, ERIC, SciELO y Redalyc y, se identificaron
siete categorías temáticas: andamiaje, enseñanza basada en estudios
internacionales, resolución de problemas colaborativa, diseño-construcción-prueba
(cultura maker), formación STEM/STEAM,
contextualización del aprendizaje, y espacios de intercambio reflexivo. Los
hallazgos revelan que la experimentación por sí sola no desarrolla
automáticamente HCOS; se requiere un andamiaje docente explícito, orientación
pedagógica, contextualización significativa y oportunidades de argumentación.
La falta de formación docente y de infraestructura en América Latina limita
este potencial.
Palabras clave: experimentación,
habilidades científicas de orden superior, educación secundaria, andamiaje,
revisión sistemática.
Introdução
Quando se ensinam ciências no ensino secundário,
pretende-se formar cidadãos capazes de compreender o mundo a partir de uma
perspectiva científica, desenvolvendo pensamento crítico e habilidades para a
resolução de problemas (Jiang et al. 2023). Indubitavelmente, tal consideração coloca que a
educação tem de corresponder às exigências do mundo atual, como afirma a Unesco
(2017), juntamente com os desafios e as aspirações do
século XXI, com objetivos e conteúdos de aprendizagem pertinentes. Nesta
perspectiva, como deixar aquilo que Furman (2016, p. 32) chama de "a possibilidade de viver na própria pele o
próprio processo de investigar o mundo"? A resposta não é outra senão
através da experimentação. As práticas de laboratório em ciências naturais têm
sido consideradas há muito tempo como um eixo vertebrador que conecta o
conhecimento teórico com a realidade empírica. Mas qual é o papel do professor
nesta virada epistemológica na sala de aula? García
e Moreno (2019, p. 157) respondem:
O professor pode favorecer o processo de aprendizagem
através de trabalhos experimentais cujo adjacente seja a observação ativa, as
perguntas e hipóteses, a artificialização de fenômenos naturais e a busca de
soluções para situações cotidianas e, por sua vez, o desenvolvimento das
habilidades científicas de descrição, argumentação, análise, apropriação e
aplicação do conhecimento científico para interpelar a realidade e
transformá-la; por fim, compreender a ciência como um conhecimento que se
constrói a partir de situações cotidianas sem respostas aparentes, onde os
estudantes são os protagonistas na construção de suas novas explicações.
Um percurso pela literatura científica publicada permite
constatar que as práticas de laboratório contribuem para a formação de
habilidades experimentais nos estudantes do ensino secundário. Osorio
(2022) e Jiang
et al. (2023) mencionam que nesta
idade os jovens aprendem a manipular reagentes químicos, equipamentos e
instrumentos de laboratório, formular hipóteses, realizar experimentos para
confirmá-las e medir variáveis relacionadas aos fenômenos estudados.
Da mesma forma, as vozes da comunidade científica
argumentam os benefícios que a experimentação no ensino secundário traz consigo
e como se geram aprendizagens em múltiplas dimensões. Nesta ordem de ideias, Bretz
et al. (2013) e Hakim
et al. (2013, 2016) descobriram que a
realização de experimentos científicos permite a compreensão dos conceitos e
contribui para corrigir ideias errôneas. Além disso, afirmam que as práticas de
laboratório ajudam a alcançar uma aprendizagem significativa, gerando um ambiente
motivador que desperta o interesse e a curiosidade dos estudantes por aprender
e, ao mesmo tempo, favorecem a compreensão profunda de conceitos complexos como
espaço mediador (Escobar, 2016 e Pillajo et al., 2025).
No entanto, se considerada do ponto de vista
procedimental, convém mencionar que os laboratórios contribuem para o
desenvolvimento de destrezas específicas. Dessa maneira, o estudo de Hernández
et al. (2018) sustenta que os
experimentos no ensino secundário são fonte de conhecimento e um meio para
confirmar hipóteses, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades e
hábitos experimentais.
Da mesma maneira, a Universidade
de San Pedro Sula (2017) expõe que nos
laboratórios existem instrumentos de medição, reagentes e outros elementos que
facilitam o alcance dos objetivos na busca de uma concretização do conhecimento
científico através da aprendizagem por descoberta. Por sua vez, Palacios
(2016) afirma que estas
práticas aumentam as destrezas na experimentação e fomentam o respeito ao meio
ambiente.
A partir de um olhar reflexivo sobre o plano atitudinal e
epistêmico, pode-se afirmar, como indicam Gonzáles
et al. (2004), que a experimentação
no ensino das ciências vai além de facilitar a verificação de hipóteses. Nesse
sentido, os experimentos são, na realidade, um meio chave para promover a
aprendizagem de conteúdos, resolver problemas e chegar a conclusões sólidas, imprimindo
maior rigor científico ao ensino no ensino secundário. Isso corresponde ao que
afirma o National Research Council (2013, citado em Murphy
et al., 2018, p. 1239): "requer uma
mudança fundamental na pedagogia científica para fomentar conhecimentos e
práticas como o conhecimento profundo e conceitual, o raciocínio baseado em
modelos e a argumentação oral e escrita onde se avalia a evidência
científica".
Nesta perspectiva de pensamento, López
e Tamayo (2012) insistem em considerar
que os laboratórios fortalecem tanto o conhecimento conceitual quanto o
procedimental, permitindo aprofundar aspectos essenciais da metodologia
científica e fomentando habilidades de raciocínio como o pensamento crítico e
criativo, além de atitudes como a abertura mental, a objetividade e uma sã
desconfiança em relação a julgamentos não sustentados em provas suficientes.
Agora, cabe perguntar: Quais são as condições para que a
experimentação ocorra? Hoje existem tanto laboratórios físicos quanto virtuais
que são essenciais. De Jong et al. (2013) expressaram que no nível pré-universitário e
universitário costumam ser oferecidas experiências científicas atrativas e
estimulantes. Nesta mesma perspectiva, Satterthwait (2010) afirma que as
experiências práticas nos laboratórios de ciências desempenham um papel
fundamental ao permitir que os estudantes aprendam. Ambusaidi
et al. (2018) acrescentam que, ao
incorporar tecnologia nesses espaços, a maneira como os estudantes aprendem
ciência muda notavelmente. Bazán e Díaz (2021, p. 18) sintetizam esta ideia ao afirmar que os laboratórios
tornam possível "a resolução de problemas, partindo de suas experiências
reais, e torna possível o aperfeiçoamento das habilidades científicas
escolares".
No entanto, apesar de existir um consenso teórico entre
os pesquisadores, é inegável que na Venezuela e em alguns países muitas
instituições têm obstáculos significativos para sua implementação. Assim, por
exemplo, há centros educativos onde não é possível realizar experimentos devido
à falta de laboratórios equipados. Estudos como os de Torres
e Ayuso (2025, p. 22), realizados na
República Dominicana, indicam que:
50% dos estudantes de centros públicos e 52% dos centros
conveniados afirmam ter níveis de domínio baixos ou muito baixos no que se
refere a avaliar e desenhar experimentos. Da mesma forma, 73% dos estudantes de
centros públicos e 70% dos centros conveniados assinalam que apenas algumas
vezes ou nunca são realizados experimentos em sala de aula. Assim também, 53%
dos estudantes de centros públicos e 44% dos centros conveniados assinalam que
apenas algumas vezes ou nunca se utiliza o método científico nas aulas.
A mesma situação foi encontrada na Colômbia, onde, apesar
de ter sido realizado investimento, ainda persiste a falta de diretrizes
claras. Ortiz e Cervantes (2015, p. 16) responsabilizam o Estado: "não se veem políticas que
definam, regulem, apoiem e assegurem o desenvolvimento geral de habilidades
científicas na população infantil desde sua entrada no sistema formal de
educação". Esse fato não permitiu uma generalização dos programas e
propostas que foram apresentados, embora tenha havido investimento em recursos.
No caso do Equador, também se coloca "a necessidade
de programas de capacitação que permitam promover a participação do professor
de Ciências Naturais como guia na preparação do aluno para um ser mais
independente na busca e assimilação de conhecimentos científicos através da
experimentação" (Ramírez, 2023, p. 637).
Paradoxalmente, ocorre o contrário: há instalações, mas
os professores não desenvolvem práticas de laboratório, privando assim os
estudantes da oportunidade de validar suas hipóteses, refinar suas habilidades
de observação e análise e aprender com seus próprios erros; aspectos todos eles
relevantes para o desenvolvimento de competências científicas (Osorio,
2022).
Apesar disso, o problema não é apenas de infraestrutura e
equipamento dos laboratórios. Existem professores que assumem práticas docentes
que vão em detrimento de uma aprendizagem significativa, concedendo maior
importância à leitura de livros ou materiais didáticos do que a situações em
que o estudante se aproprie do conhecimento por meio da experimentação. Nesse
sentido, Ramírez (2023, p. 634) afirma que nestes professores "há uma predominância
sobre desenvolvimento de conteúdos, conhecimentos e termos acima das atividades
experienciais". Concordando com isso, outros pesquisadores mencionaram que
os professores implementam poucas atividades em sala de aula onde os estudantes
participam de uma argumentação autêntica dentro da aula de ciências (Sampson
& Blanchard, 2012; Knight-Bardsley & McNeill, 2016).
Esse comportamento está baseado em um papel tradicional e
uma aprendizagem memorística centrada na repetição, sem possibilidade de
reconstrução do conhecimento e sem favorecer a aprendizagem das ciências
naturais (Muñoz e Charro, 2023). Como consequência disso, as aulas muitas vezes caem no
tédio, um papel passivo do estudante, sem despertar seu interesse nem propiciar
a utilidade na vida cotidiana do que é aprendido (Sanmartí
e Márquez, 2017).
Esses comportamentos dos professores deixam de lado
raciocínios científicos de ordem superior como a transferência, a heurística e
a argumentação, dimensões cognitivas da aprendizagem segundo a taxonomia
proposta por Bloom et al. (1956) e revisada por Anderson e Krathwohl (2001) e Gallardo et al. (2010).
Também costuma acontecer que alguns professores fazem
perguntas aos estudantes em vez de deixar que eles sejam os que as façam ao
professor. Tal situação é contrária ao que sugerem os especialistas (Martin-Hansen,
2002). Mas essa investigação em sala de aula costuma
ser de baixo nível (Fay et al., 2007; Tamir e García, 1992). Além disso, o próprio professor acaba dando resposta
baseada em conteúdos, razão pela qual a pergunta não é investigável porque é
uma investigação estruturada e não é verdadeira investigação (Ferrés,
2017). Mesmo quando os currículos construtivistas
sugerem que os conteúdos sejam instrumentos que permitam formular uma hipótese
que oriente o processo de pesquisa (Domènech, 2014). Fato nada fácil de ser alcançado pelo professor. Lombard
e Schneider (2013) afirmam que a elaboração
de perguntas é um processo interativo entre aluno e professor, e iterativo, que
conduz da vagueza até a complexidade e adequação, e que necessita de tempo.
De acordo com o exposto, a experimentação é um componente
ineludível na formação científica do estudante do ensino secundário. No
entanto, ao realizar uma observação mais profunda acerca da natureza das
aprendizagens que costumam derivar-se do desenvolvimento de atividades
experimentais nas práticas de laboratório, emerge uma distinção fundamental.
Enquanto a aquisição de habilidades básicas — como seguir um protocolo ou um
conjunto de passos para realizar um experimento em biologia, física ou química
e medir uma variável ou manipular um reagente — durante a prática de
laboratório aparece de forma automática, o desenvolvimento das denominadas
Habilidades Científicas de Ordem Superior (HCOS) apresenta um panorama menos
claro do ponto de vista epistemológico.
Enquanto alguns estudos centram sua atenção nas
habilidades básicas, outros aspectos de ordem superior são negligenciados. A
respeito, convém mencionar que Coronado (2024) e Hernández et al. (2018) descrevem os experimentos como espaços onde os
estudantes confirmam hipóteses e desenvolvem hábitos. No entanto, tal
caracterização pode estar omitindo o processo cognitivo profundo.
Quando os estudantes realizam experimentos no laboratório
de ciências naturais, seguem cuidadosamente os passos que correspondem a essa
marcha analítica da experiência, o que implica o planejamento prévio do
experimento, o desenho, a seleção dos materiais e equipamentos necessários, bem
como as normas de segurança a seguir; com isso, evidencia-se a capacidade que o
estudante tem para resolver problemas e aprender conceitos científicos
validados em seu contexto (Coronado, 2024).
Apesar do anterior, realizar uma experiência de
laboratório é, como sustentam Silva e Cáceres (2024), uma maneira de se aproximar do saber científico, mas
convém perguntar: a confirmação de uma hipótese é um ato mecânico de
verificação ou implica um verdadeiro exercício de contrastação e reflexão? Da
mesma forma, o desenho de um experimento emerge da iniciativa e do raciocínio
do estudante ou é guiado passo a passo pelo professor apenas para confirmar o
que já se sabe, em vez de propor novas perspectivas e hipóteses científicas de
acordo com o interesse do estudante?
Indubitavelmente, tais questionamentos têm maior
importância se considerarmos o que se entende por habilidades científicas
complexas. Pesquisadores como Faicán e Manzano (2024, p. 100) afirmam que "o pensamento crítico, a resolução de
problemas, as habilidades cognitivas e de comunicação, a capacidade para
formular hipóteses, a experimentação e a interpretação" correspondem ao
núcleo de uma competência científica autêntica e que esta não costuma se
desenvolver automaticamente apenas com a realização de atividades
experimentais.
Além disso, poderia considerar-se que, em muitas salas de
aula do ensino secundário, as experiências realizadas nos laboratórios de
ciências naturais são mais atividades meramente procedimentais sem
intencionalidade formativa, em vez de serem motivadoras e úteis para ilustrar
conceitos que desafiem os estudantes a pensar como cientistas. Como expôs Ramírez
(2023), quando prevalece uma abordagem tradicional
centrada na repetição e no conteúdo, até mesmo as práticas de laboratório podem
ser empregadas para seguir uma lógica de memorização ou de simples verificação,
desperdiçando seu potencial epistêmico.
Apesar de existir uma grande quantidade de literatura
publicada com relação ao papel da experimentação na formação das habilidades
básicas nos estudantes, ainda existe uma lacuna significativa na compreensão
daqueles mecanismos próprios que estabelecem um vínculo entre as atividades
experimentais ou práticas de laboratório e o desenvolvimento das HCOS em
estudantes do ensino secundário. Sem exagerar, alguns estudos apontam para
discernir o que se aprende no laboratório, mas não dirigem sua atenção para como
se produz essa aprendizagem complexa nos estudantes. É de mencionar que tal
distinção é de suma importância no momento de elaborar os desenhos
curriculares, desenvolver planos de capacitação e formação de professores em
ciências naturais e propor estratégias didáticas que podem ser empregadas no
ensino das ciências naturais para os jovens nas instituições educativas.
Nesse sentido, o presente artigo tem como ponto central a
seguinte questão científica: De que maneira a experimentação, quando realizada
no contexto do ensino secundário, contribui realmente para a formação de
habilidades científicas de ordem superior? O roteiro a seguir tem como centro
de operações uma revisão sistemática da literatura publicada entre 2016 e 2026;
busca-se analisar os fatores pedagógicos, contextuais e epistemológicos que
determinam se uma prática de laboratório se torna um mero exercício procedimental
ou uma autêntica experiência de investigação que desenvolva o pensamento
científico dos estudantes.
Metodologia
Na pesquisa, realizou-se uma revisão
sistemática da literatura seguindo as diretrizes da declaração PRISMA 2020 (Page et al., 2021). A pergunta de pesquisa que guiou a
revisão foi: De que maneira a experimentação no ensino secundário contribui
para a formação de habilidades científicas de ordem superior (HCOS)?
Estratégia de busca. Foram elaboradas equações de busca em inglês e espanhol combinando
termos-chave com operadores booleanos (AND, OR) e caracteres curinga
(*). Os conceitos principais foram: (a) população/contexto: ensino secundário;
(b) intervenção/fenômeno: experimentação ou práticas de laboratório; (c)
resultado: habilidades científicas de ordem superior (pensamento crítico, resolução
de problemas, formulação de hipóteses, argumentação, investigação). As equações
foram aplicadas nas bases de dados Scopus, Web of Science, ERIC, SciELO e
Redalyc, cobrindo o período de 2016 a 2026.
Critérios de inclusão e exclusão. Foram incluídos artigos empíricos (qualitativos, quantitativos ou
mistos), revisões sistemáticas e ensaios controlados, publicados em inglês ou
espanhol, que abordassem a experimentação no ensino secundário e sua relação
com as HCOS. Foram excluídos editoriais, resenhas de livros, estudos centrados
exclusivamente no ensino primário ou universitário sem transferibilidade
explícita, e aqueles que não apresentassem dados originais ou síntese
metodologicamente explícita.
Processo de seleção e extração de dados. Dois revisores examinaram de forma independente títulos e resumos
(fase 1), depois textos completos (fase 2). Os desacordos foram resolvidos por
consenso. De cada estudo incluído foram extraídos: autor(es), ano, país, nível
educacional, desenho de pesquisa, tipo de experimentação (física, virtual,
mista), HCOS avaliadas, principais achados e limitações. A qualidade
metodológica foi avaliada por meio da ferramenta MMAT (Mixed Methods
Appraisal Tool) versão 2018.
Síntese dos resultados. Para a síntese dos resultados, realizou-se uma análise temática
seguindo as fases de Braun e Clarke (2006).
Um total de 250 estudos atendeu aos critérios de inclusão e foram
submetidos à análise temática. Os temas emergentes são apresentados na seção de
resultados.
Diagrama PRISMA: Processo de seleção dos
estudos
Nota:
Escalona e Bless (2026). Elaboração
própria.
Resultados e discussão
Categoria
1: Andaime (ou scaffolding) na aprendizagem da investigação
Na comunidade de
pesquisadores, o andaime é um constructo de singular importância na hora de
levantar inquietações científicas. Não se trata de oferecer respostas
imediatas, mas de oferecer os meios para a construção autônoma do conhecimento.
Desde nossa perspectiva, propomos um exemplo ilustrativo: em um experimento de
biologia sobre fotossíntese, o professor pode modelar o pensamento e agir como
um espelho de raciocínio, provocando a dúvida:
Observo que saem bolhas
saindo do ramo de Elodea através do tubo de ensaio que está na cubeta com água.
O que acontecerá se eu aproximar mais a lâmpada da cubeta de vidro?
O professor também pode
buscar que o estudante conecte variáveis: Se o oxigênio é produto da
fotossíntese, então a velocidade com que essas bolhas são produzidas indica a
velocidade de produção na planta?
Igualmente, o professor
pode sugerir a medição: Jovens, como vocês acham que é a luz e não o calor da
lâmpada que controla o resultado? O que vocês acham que podemos manter fixo?
Da mesma forma, o
professor pode empregar outra variante comum como "fazer e depois refletir
sobre o ocorrido" (Strat
et al., 2023). Nesse tipo de experiência, o estudante trabalha de
forma colaborativa e ativa. Descobriu-se que, sob essa metodologia, os
estudantes adquirem conhecimentos, bem como habilidades-chave. No entanto, o
essencial é o apoio motivacional que o professor oferece ao estudante para
realizar a experiência. Os estudos indicam que existe uma correlação positiva
entre o apoio motivacional do docente e as expressões de motivação dos
estudantes (Adler
et al., 2018). Embora também, Zhang e Cobern (2020) tenham mencionado que é
importante colocar o conteúdo científico à disposição dos alunos. A razão é que
nem sempre é fácil para os estudantes desenvolver atividades baseadas na
investigação sem que estejam vinculadas a conceitos científicos (Rönnebeck et al., 2016).
Categoria
2. Ensino científico a partir dos resultados de estudos internacionais
Diversas publicações
mencionam que, em muitos sistemas educativos, defende-se a instrução científica
com ênfase na investigação, mas os estudos baseados em avaliações
internacionais em grande escala frequentemente mostram que a investigação está
associada negativamente ao desempenho. Aditomo & Klieme (2020) mostram uma associação
positiva da investigação entre os resultados e a orientação docente. O estudo
com 151.721 estudantes indica que as análises fatoriais confirmatórias de
múltiplos grupos confirmam ainda que não se pode estabelecer a invariância de
medição, o que sugere uma variação regional substancial no padrão de instrução
baseada na investigação.
Igualmente, Aditomo & Klieme (2020) assinalam que, a nível
conceitual, muitas regiões exibem um padrão contrastável entre 'Investigação
guiada' e 'Investigação independente'. A investigação está associada
positivamente aos resultados quando incorpora a orientação docente e
negativamente quando não. No entanto, a força das associações positivas é mais
forte nas regiões onde a investigação guiada é medida com menos itens que se
referem a atividades centradas nos estudantes. Tais resultados correspondem ao
que propõem as teorias atuais sobre o papel do andaime na aprendizagem da
investigação.
Outras pesquisas
internacionais revelam que, no ensino das ciências experimentais, um aspecto
fundamental a considerar é a formação didática do professorado. Nessa
perspectiva, Ríos
(2021) propõe a necessidade de considerar a realidade
onto-epistemológica e gnoseológica da ciência a ser ensinada, sem descuidar da
articulação com a Filosofia da Ciência e Metodologia a partir do realismo ético
(Quijano et al., 2022). Desde as duas últimas
décadas do século XX, ocorreu uma virada epistemológica na didática da ciência
e passou-se de um positivismo para considerar como o professorado deve assumir
posições diante de fenômenos da realidade, ou seja, ver as repercussões sobre a
incidência da pesquisa científica neles e tomar decisões
"sociocientíficas" a respeito (Adúriz e Ariza, 2012). As propostas
realizadas representam ir de procedimentos lógico-positivistas para um
humanismo cívico (De
Hoyos, 2020).
A situação apresentada
abre caminho para a necessidade (e ao mesmo tempo dificuldade) de que a
filosofia da ciência e as metaciências, juntamente com as ciências
experimentais, deixem de lado essa desconfiança entre elas, porque se perde
algo fundamental quando se ignora a outra. Nesse sentido, é necessária a
colaboração entre cientistas das metaciências e das ciências objeto de ações
disciplinares. No entanto, tal aproximação não é fácil de alcançar. Por um
lado, há filósofos que menosprezam o trabalho de laboratório. Para eles, não é
importante saber o que os cientistas estudam ou a maneira como o fazem. Daí que
essa práxis científica não é relevante. Talvez por essa razão o seu processo
eidético seja apenas mental, com um grau de abstração cuja base são as ideias,
e as teorias construídas estão fora de uma conexão com a realidade empírica.
Do outro lado, estão os
cientistas das ciências experimentais que diminuem a importância dos benefícios
que a filosofia representa em um contexto onde domina a hiperespecialização.
Ora, do nosso ponto de vista, o problema que isso traz para os professores de
ciências experimentais é tomar partido de um desses extremos descritos.
Portanto, o desafio para os professores do ensino secundário em ciências
naturais não está em escolher entre métodos de investigação guiados ou
independentes, mas também em superar a falsa dicotomia entre a filosofia e a
prática científica.
Logicamente, é
necessário pensar na formação de competências científicas de ordem superior
como o pensamento crítico, a modelização ou a argumentação. Para isso, é
preciso partir de uma abordagem integradora que combine o rigor experimental
com a reflexão epistemológica. Em outras palavras, os professores devem ser
capazes de desenhar experiências de aprendizagem onde os estudantes não apenas
manipulem variáveis, mas também questionem a natureza do conhecimento
científico, seus métodos e suas implicações sociais. Só assim se poderá avançar
em direção a uma educação científica que forme cidadãos capazes de participar
de debates sociocientíficos com uma compreensão profunda e contextualizada da
ciência.
Categoria 3. Resolução de problemas a partir de experiências individuais
colaborativas
Existem diferentes pesquisas que
afirmam que a competência de resolver problemas tem grande importância tanto no
âmbito acadêmico quanto profissional. De fato, uma pergunta recorrente nas
aulas de ciências naturais, pela nossa experiência com os jovens do ensino
secundário e até na própria universidade, são estas duas perguntas: "E
esse conteúdo para que nos serve na vida real?" "Que utilidade tem
nas coisas que fazemos em nossas vidas?" Essas duas perguntas sempre
desequilibram os planejamentos das unidades didáticas dos professores e geram,
em alguns casos, respostas pouco satisfatórias para os jovens e, para os
professores, um olhar crítico sobre o currículo que lhes é oferecido pelos
ministérios da educação.
Os jovens sempre estabelecem
conexões desse conhecimento com o seu mundo da vida. No entanto, os conteúdos
estão fragmentados e explicados a partir da visão das disciplinas. Os
professores raramente contextualizam e dão pouca importância ao questionamento
e às implicações que os conteúdos têm. Embora os fundamentos epistemológicos
dos desenhos curriculares contenham aspectos sobre a aprendizagem significativa
e o construtivismo em sala de aula, esses aspectos ficam no documento oficial e
os professores assumem o papel de transmissão e reprodução do conhecimento como
eixo central, deixando de lado o olhar crítico e a participação dos estudantes,
transformando-os em entes passivos do seu processo de aprendizagem.
Este cenário descrito sugere a
necessidade de mudança. Nos Estados Unidos, foi proposto que um programa de
excelência requer "um ensino eficaz que envolva os estudantes em sua
aprendizagem significativa por meio de experiências individuais e colaborativas"
(National Council of Teachers of Mathematics, 2014 citado por Koskinen &
Pitkäniemi, 2022, p. 2). O fato de isolar o conhecimento
apenas ao âmbito da ciência faz com que o estudante não compreenda a relação
que este tem com o seu mundo da vida e menos ainda que desenvolva a competência
de raciocínio. Cruz (2021, p. 55) expõe que
"os professores devem ser capazes de criar práticas inovadoras no
ensino". Igualmente, Cruz e Cabero (2020) sugerem
que uma das vias para alcançar essa aprendizagem significativa é a resolução de
problemas. Por meio dela, implementa-se a criatividade na aprendizagem de forma
ativa, personalizada e dinâmica. Mas não somente isso: os estudantes também se
tornam agentes ativos da aprendizagem, tomam decisões e deixam de ser entes
reprodutores de conhecimentos.
Agora, o que é preciso fazer para
implementar um ensino fundamentado na resolução de problemas de forma eficaz em
ciências naturais? Do nosso ponto de vista, acreditamos que uma forma seria
prestar atenção ao que sugerem certos documentos como o Programa Internacional
de Avaliação de Alunos (PISA). Uma revisão deste documento nos permite fazer
algumas considerações importantes com respeito ao ensino das ciências.
No nível 2, ou seja, onde os
estudantes são capazes de reconhecer a explicação correta de fenômenos
científicos familiares e podem utilizar esse conhecimento para identificar, em
casos simples, se uma conclusão é válida em função dos dados fornecidos; verificamos
que é muito preocupante a situação em países como a Colômbia, que se situa
entre os de mais baixo desempenho, cerca de 75 pontos abaixo do limiar
estabelecido pela OCDE (2019). A Argentina tem apenas 46% de seus
estudantes, Brasil 45%, República Dominicana 23%, México 49%, Peru 47%, Panamá
38%, Paraguai 29%, em comparação com os 76% que a OCDE tem em média. No
entanto, Turquia tem 75%, Estados Unidos 78%, Vietnã 79%, Canadá 85%, Coreia
86%, Estônia 90% e Japão 92%.
Agora, no que diz respeito aos
níveis 5 ou 6, onde os estudantes podem aplicar de forma criativa e autônoma
seus conhecimentos de e sobre a ciência a uma ampla variedade de situações,
incluindo outras desconhecidas, a média da OCDE é de 7%. Brasil, Panamá e Peru
alcançam apenas 1%. Colômbia não aparece refletida. Chile 2%. República
Dominicana, México, Paraguai: quase nenhum estudante obteve os melhores
resultados em ciências. A seguinte infografia nos permite ilustrar o que
apresentamos.
Figura 1
Resultados do PISA
Nota.
Elaborado no NotebookLM com base em dados de Lerma
et al. (2023), OCDE (2018, 2023) e PISA 2022.
Infografia baseada nos resultados do PISA 2022. Os dados são universais e a
infografia está em espanhol, mas sua compreensão é imediata: 76% dos estudantes
globais alcançam o nível 2 (competência básica); apenas 7% alcançam os níveis 5
ou 6 (excelência). Japão: 92% (nível 2+) e 18% (excelência); Canadá: 85% e 12%;
México: 49% e 0%; Colômbia: 75 pontos abaixo do limiar da OCDE; República
Dominicana: 23%; Paraguai: 29%.
Categoria
4. Projetar, fazer e testar como uma virada para a aprendizagem ativa e a
materialização do conhecimento
Categoria
4. Projetar, fazer e testar como uma virada para a aprendizagem ativa e a
materialização do conhecimento
Um dos aspectos importantes que ocorrem no
ensino das ciências naturais é propiciar a oportunidade para projetar, fazer e
testar. Isso implica superar a observação ou verificação de hipóteses e
percorrer o processo de construção do conhecimento. Esse princípio tem sua raiz
na cultura maker e nas metodologias ativas STEM. Lidueña
e Alcocer (2025, p. 311) argumentam que a cultura maker se centra na
criatividade, "na colaboração e na resolução de problemas reais, não
apenas melhoram o desempenho acadêmico, mas também promovem a equidade
educativa e o desenvolvimento de competências essenciais para o século
XXI".
Logicamente, essas habilidades científicas
são de ordem superior e entre elas podem-se mencionar a criatividade, a
resolução de problemas complexos e o pensamento crítico, porque os estudantes
são arquitetos de seu próprio experimento ou projeto. Deixar que a práxis
docente transcorra dessa forma significa passar de uma prática de laboratório
estruturada que muitas vezes se desenvolve seguindo uma marcha analítica e
registrando em um manual ou guia de laboratório cada experiência, ou seja,
apenas seguir o roteiro predefinido. No entanto, "projetar, fazer e
testar" implica um ciclo iterativo de ideação, construção, erro, reflexão
e redesenho.
Domínguez (2023) afirma
que a cultura maker parte da ideia que se formaliza como "faça você
mesmo" e "faça com outros". Epistemologicamente, o conhecimento
é visto então como uma construção, daí se vincular ao construcionismo, uma
teoria da aprendizagem proposta por Seymour Papert. Ora, nesse processo de
construção coletiva, intervêm as redes sociais reais ou virtuais para
compartilhar o conhecimento criado. A maioria das pessoas costuma acessar essas
redes onde encontra apoio ou orientação. O interessante é que posteriormente o
conhecimento criado é deixado de forma aberta para que seja acessível a outras
pessoas e se possam encontrar melhores soluções (Domínguez,
2021). Morales e Dutrénit (2017) sintetizam dizendo que o movimento Maker está envolvido nos processos de
geração, transferência e uso do conhecimento.
Precisamente, um estudo que materializa
essa filosofia da cultura maker foi realizado por Zulfa
e Adam (2025) na Indonésia com estudantes do ensino
secundário, onde implementaram a Aprendizagem Baseada em Projetos integrada com
STEM (PjBL-STEM) por meio do ensino de química, nos conteúdos de eletroquímica.
Esses pesquisadores melhoraram os resultados de aprendizagem e desenvolveram
Habilidades de Pensamento de Ordem Superior (análise, síntese e avaliação,
etapas cognitivas chave que os levaram a uma compreensão holística). Além dos
experimentos, eles projetaram e completaram projetos autênticos, onde o
"fazer" foi guiado por uma pergunta ou problema real que permitiu a
integração da engenharia e da tecnologia no desenho experimental como um veículo
poderoso para o pensamento complexo. Com esse projeto, ficou claro que não é
necessário ter um laboratório caro e especializado, mas que, ao projetar,
pode-se reconfigurar objetos familiares com propósitos científicos. Esse fato
permite que os estudantes compreendam conceitos e princípios físicos com maior
profundidade do que um aparelho ou equipamento de laboratório permitiria.
Na mesma perspectiva, recentemente na
Universidade da Malásia integraram o projeto com a ação, mas a partir da
inovação social e acessibilidade no projeto "Toying with Science".
Através da experiência, os estudantes participaram da cocriação de módulos de
aprendizagem. Finalmente, a estratégia empregada permitiu despertar o interesse
pelas disciplinas STEM e facilitou a assimilação de habilidades transferíveis
essenciais como a perseverança, o pensamento crítico, a criatividade e o
trabalho em equipe (Universiti Malaya, 2025).
Na linha de discussão apresentada, a
dimensão tecnológica também oferece novas possibilidades no ciclo de
"projetar, fazer e testar", especialmente se os recursos físicos são
limitados. Pesquisas realizadas na Nigéria mencionam o impacto dos laboratórios
virtuais em biologia, química e física em estudantes do ensino secundário. Os
resultados confirmam diferenças significativas nas habilidades de resolução de
problemas entre estudantes que utilizaram simulações virtuais em comparação com
aqueles que receberam ensino tradicional (St.
Clair et al., 2024). Da mesma forma, os estudantes são
capazes de modificar variáveis, projetar novos parâmetros e testar hipóteses em
ambientes simulados de maneira iterativa, desenvolvendo a capacidade de
raciocínio científico sem a barreira da disponibilidade de insumos físicos. No
entanto, a experiência tátil não deve ser completamente substituída, mas sim
ser complementar. Igualmente, é necessário um andaime que oriente o pensamento
dos estudantes.
Categoria 5. A formação em STEM
ou STEAM
Nesta categoria, de acordo com as pesquisas
encontradas, focamos nas estratégias didáticas e ambientes tecnológicos para o
desenvolvimento das HCOS. Essas estratégias são de andaime e mediação
tecnológica e permitem alcançar uma experimentação reflexiva de ordem superior,
ou seja, vai-se além da experimentação procedimental ou manipulação de
instrumentos baseada em receitas (St. Clair et al., 2024).
No caso de países onde se tem
infraestrutura física limitada, como já mencionado em parágrafos anteriores,
também em casos de existirem lacunas na formação docente, como é o caso da
Colômbia e do Equador, é necessária uma virada epistemológica no ensino das
ciências naturais. Ou em situações como a vivida com a pandemia de COVID-19,
onde os estudantes não podiam assistir às suas aulas e foram implementados
laboratórios virtuais (Gamage et al., 2020),
não se deve pensar que são um substituto, mas sim um ambiente valioso para a
modelagem científica e o raciocínio baseado em evidências (Solbes et al., 2025).
Por sua vez, Meronda
et al. (2025, p. 2020) sustentam que: "Os laboratórios
virtuais surgiram como uma inovação significativa na educação científica,
enriquecendo as experiências de aprendizagem, aprofundando a compreensão
conceitual e proporcionando um acesso mais flexível e seguro aos experimentos".
É importante mencionar que essas ferramentas tecnológicas permitem que o
estudante se concentre na argumentação científica e na tomada de decisões
críticas no caso de dados inesperados, habilidades que definem o cidadão
alfabetizado cientificamente no século XXI.
Raman et al. (2022) e Zhang et al. (2024) mencionam que esses laboratórios são soluções eficazes para os desafios da
aprendizagem moderna. Enquanto Chen e Wang (2023) sustentam
que eles fomentam a motivação, o entusiasmo e a criatividade entre os
estudantes. Bazie et al. (2024),
ao se referirem aos laboratórios virtuais, afirmam que nos cursos práticos de
química oferecem simulações eletrônicas que replicam experiências de
laboratório reais.
Estudos recentes confirmam que atualmente
existe uma transição dos modos tradicionais para os modos on-line, facilitada
por simulações interativas (Vo & Simmie, 2025).
Dessa maneira, o desafio do professorado consiste em transformar o laboratório
em um espaço de investigação explícita, onde o erro e a resistência dos
materiais sejam o motor do pensamento crítico e não um obstáculo para a
aprendizagem.
Desde nossa perspectiva, consideramos que é
necessário capacitar os estudantes para avaliar a validade das afirmações. O
laboratório de ensino secundário é o lugar ideal para praticar essa
alfabetização científica midiática. Com o projeto de seus próprios
experimentos, os alunos aprendem a identificar vieses, a controlar variáveis e
a compreender que a ciência não oferece verdades absolutas, mas sim conclusões
respaldadas por evidências. Esse processo eleva a atividade de uma habilidade
de baixa ordem (memorização de etapas) para uma de ordem superior (avaliação e
síntese). O maior obstáculo epistemológico que geralmente se apresenta no
ensino secundário é que alguns docentes se sentem muito confortáveis com
laboratórios de confirmação (onde o resultado já é conhecido), mas sentem medo
da incerteza de um laboratório aberto baseado em problemas.
Categoria
6. A contextualização da aprendizagem
Há alguns anos em Hong Kong, apesar de ser
pioneiro nos resultados do PISA, ocorreram várias reformas curriculares porque,
como expressou Kwok (2018, p. 533):
"Nossos estudantes têm sucesso nos exames, mas não sabem até que ponto a
ciência e a matemática são relevantes para suas vidas". Essa expressão
conduz a uma reflexão de grande valor: como propor o desenvolvimento da
aprendizagem significativa e acessível a todos os estudantes, especialmente no
ensino secundário? A via não é outra senão a contextualização da aprendizagem.
A esse respeito, Hüfner
et al. (2025, p. 1) sustentam que "A educação científica
baseada no contexto (CBSE) tem desempenhado um papel central na reorientação da
alfabetização científica para todos os estudantes". Agora, a ideia de usar
o contexto como ponto de apoio para o fim pedagógico considera que os conteúdos
estão conectados com fenômenos cotidianos, problemas sociais e as experiências
prévias dos estudantes.
Nessa ordem de ideias, Fayzullina et al. (2023, p. 2) afirmam que "a
aprendizagem baseada em contexto se tornou uma estratégia educacional de
vanguarda que busca fechar a lacuna entre os conceitos científicos teóricos e
suas aplicações no mundo real". Além disso, a aprendizagem baseada em
contexto é amplamente valorizada para a educação na comunidade científica (Sevian et al., 2018). Igualmente, os estudos indicam que o
contexto, como ambiente de aprendizagem e construção social, sustenta-se por
interações contínuas (AlabdulRazzak et al., 2018).
No ensino das ciências, a aprendizagem
baseada em contexto é reconhecida como um método promissor (Nagarajan & Overton, 2019). Mas, além disso, fala-se dos currículos
de ciências baseados em contexto (Fensham, 2009).
Nesse sentido, a contextualização torna possível que os conteúdos deixem de ser
complexos e se convertam em uma ponte entre a aprendizagem escolar e a vida
real; logicamente, isso desperta o interesse dos estudantes e facilita a
compreensão da ciência (Aydın-Ceran, 2021).
Nesse sistema, começa-se com um contexto
sociocultural familiar para o estudante; cada conceito é ensinado a partir daí,
mas realmente a eficácia do processo se reflete quando o estudante é capaz de
associar os conceitos ensinados a outros contextos mais complexos (Aydin-Ceran, 2018; DeGirolamo et al., 2024).
Essa situação faz surgir uma "necessidade de saber" para explicar os
fenômenos científicos que são estudados. Por essa razão, é necessário saber os
conceitos e princípios subjacentes para esclarecer as perguntas desencadeadas
pelo contexto. Esse fato faz com que os estudantes se envolvam em seu próprio
processo de aprendizagem (Vogelzang & Admiraal, 2017). Os estudos mostram que os estudantes conectam o conhecimento acadêmico
com a vida cotidiana através de aplicações práticas (Demelash
et al., 2024).
No caso de estudantes do ensino secundário,
do nosso ponto de vista disciplinar, tanto a biologia quanto a física e a
química se apresentam como domínios férteis para a aprendizagem baseada em
contextos, devido à existência de muitos fenômenos do mundo real que têm
conexão com os conteúdos trazidos pelos desenhos curriculares. Por exemplo, em
biologia, pode-se contextualizar a realização de experimentos de laboratório
com problemáticas como a resistência aos antibióticos, a biodiversidade do
ambiente próximo onde vivem os estudantes. Também se podem considerar as
mudanças que ocorrem nos ecossistemas locais; isso serviria para que os
estudantes formulem hipóteses baseadas em observações autênticas, projetem
pequenas amostragens e argumentem utilizando evidências ecológicas e
fisiológicas. No que diz respeito à física, pode-se trabalhar com contextos
como a eficiência energética no lar, a segurança viária. Da mesma forma,
podem-se realizar projetos de dispositivos tecnológicos simples que transformam
a medição de variáveis e a aplicação de leis físicas em um exercício de
modelagem e tomada de decisões fundamentadas.
De maneira similar, em química, é possível
fazer a contextualização através da análise da qualidade da água, da composição
dos alimentos ou dos processos de reciclagem; isso impulsiona os estudantes a
conectar conceitos abstratos com práticas de investigação que exigem pensamento
crítico e criatividade. Em todos os casos, a contextualização não se esgota em
uma anedota inicial; seu potencial formativo se desdobra quando se torna o eixo
estruturador de toda a sequência didática, promovendo processos de investigação
que exigem não apenas a aplicação de procedimentos, mas também a formulação de
perguntas pertinentes, a avaliação de evidências e a construção de argumentos
com base científica.
Precisamente, são estes últimos que
constituem o núcleo das HCOS. Portanto, a contextualização não é um adorno
pedagógico; ao contrário, é um andaime epistêmico que dota de sentido a prática
experimental e mobiliza processos cognitivos complexos, imprescindíveis para
formar cidadãos capazes de intervir criticamente em sua realidade. Assim, a
partir de uma perspectiva teórica, a aprendizagem situada constitui um dos
quadros que fundamentam a contextualização. Ojo
(2025), ao investigar o ensino de conceitos de genética no
ensino secundário na Nigéria, empregou essa teoria para demonstrar que, quando
os conteúdos científicos são abordados em contextos autênticos e vinculados a
controvérsias sociocientíficas (como a clonagem reprodutiva ou a modificação
genética), os estudantes desenvolvem atitudes mais positivas em relação a
conceitos que tradicionalmente resultam abstratos ou distantes.
Categoria
7. A necessidade de oferecer espaços de intercâmbio e reflexão para tornar
visível o pensamento
A necessidade de
oferecer espaços de intercâmbio e reflexão para tornar visível o pensamento
constitui uma categoria fundamental na formação de HCOS no ensino secundário.
Como assinalam García
e Moreno (2019, p. 149), é prioritário "implementar práticas experimentais
em sala de aula, especialmente no nível da educação básica, onde as habilidades
de curiosidade e observação se configuram como um elemento chave na articulação
do biológico e do social". Essas práticas a desenvolver, de acordo com o
Projeto Zero da Universidade de Harvard, têm seu fundamento em "uma rotina
de pensamento chamada penso-pergunto-exploro, que faz com que os estudantes
compartilhem o que pensam sobre um tema, identifiquem perguntas que os intrigam
e indiquem direções para explorar" (Ritchhart e Perkins, 2008, p. 57).
Embora esse pensamento
se desenvolva na mente da pessoa e seja invisível para ela mesma e para os
outros, ele se externaliza quando o pensador manifesta suas ideias através da
fala, da escrita, do desenho ou de outros meios, permitindo assim dirigir e melhorar
seus próprios processos cognitivos. No entanto, essa externalização não é um
mero exercício de comunicação, mas uma condição epistêmica para o
desenvolvimento do pensamento crítico e da metacognição.
Trabalhos de pesquisa
recentes confirmaram que a criação deliberada de espaços dialógicos na sala de
aula de ciências potencializa significativamente as habilidades de ordem
superior. Wijesekera
& Hameed (2025), em um estudo de intervenção em salas de aula de
ciências e Instrução Média em Inglês no Sri Lanka, onde tradicionalmente
predomina a aprendizagem memorística orientada a exames que limitam o
pensamento crítico e o engajamento cognitivo significativo, implementaram duas
estratégias específicas: o questionamento "O que aconteceria se...?"
(What If) e a observação com perguntas "Noto e me pergunto..."
(Notice and Wonder) dentro de grupos colaborativos. Os resultados
mostraram uma melhoria substancial no pensamento de ordem superior: o
pensamento crítico, a capacidade de resolução de problemas e o engajamento
cognitivo profundo dos estudantes. Além disso, observou-se uma maior
curiosidade e disposição para abordar conceitos científicos complexos, mesmo em
contextos onde o idioma de instrução (inglês) representava uma barreira
adicional.
Nesta categoria
analítica, um elemento importante que emergiu na bibliografia revisada é que o
andaime discursivo é fundamental para que esses espaços de intercâmbio sejam
efetivos. Um estudo sobre os efeitos da abordagem de ensino baseada em
argumentação na disposição ao pensamento crítico e nas habilidades de
argumentação dos estudantes, bem como a relação entre as habilidades de
argumentação e a disposição ao pensamento crítico em estudantes do ensino
secundário na Turquia (Meral
et al., 2021).
O trabalho citado
demonstrou que: (a) O ensino baseado em argumentação melhora a disposição ao
pensamento crítico. Este fato é fundamental do nosso ponto de vista porque não
basta que os estudantes tenham habilidades, é necessário que tenham disposição
para usá-las. A disposição ao pensamento crítico é um requisito prévio para que
as HCOS sejam ativadas. "A abordagem de ensino baseada em argumentação
teve um efeito positivo na disposição ao pensamento crítico dos
estudantes" (Meral
et al., 2021, p. 17). (b) A argumentação não é espontânea: necessita de
prática explícita e sustentada. Já indicamos neste artigo que muitos
professores assumem que a experimentação desenvolve automaticamente as HCOS.
Este estudo demonstra que, sem um andaime deliberado (como as rotinas de
argumentação), os estudantes permanecem em níveis baixos. (c) A argumentação
prediz o pensamento crítico. Nós consideramos que, se a experimentação for
acompanhada de atividades argumentativas como projetar, fazer, testar, STEM,
pode-se potencializar as HCOS. Além disso, como foi evidenciado: "As
habilidades de argumentação explicaram 34% da variação na disposição ao
pensamento crítico" (Meral
et al., 2021, p. 17). Isso significa que trabalhar a argumentação tem um
impacto direto e mensurável no pensamento crítico.
Privacidade: Não se aplica.
Financiamento: Este trabalho não recebeu nenhum tipo de financiamento.
Conflito de interesses: Os autores declaram não ter nenhum conflito de
interesses.
Declaração sobre uso de inteligência
artificial: Os autores do presente artigo declaram que não
empregaram Inteligência Artificial em sua elaboração, exceto na figura 1 do
artigo.
Conclusões
Ao longo desta revisão sistemática, foi possível
evidenciar que a experimentação no ensino secundário, embora constitua um
componente ineludível na formação científica dos estudantes, não é suficiente
por si só para desenvolver as denominadas HCOS. As práticas de laboratório
tradicionais, frequentemente centradas na verificação de hipóteses e no
seguimento estrito de protocolos, tendem a fomentar habilidades básicas como a
manipulação de instrumentos ou a medição de variáveis, mas deixam em segundo
plano processos cognitivos complexos como o pensamento crítico, a argumentação
fundamentada ou a resolução criativa de problemas. Esta constatação convida a
superar a ideia de que o simples fato de realizar experimentos garante
automaticamente uma aprendizagem profunda e significativa.
Conclui-se também que o papel do docente neste contexto é
um fator determinante para que a experimentação alcance seu verdadeiro
potencial epistêmico. Não basta que os estudantes sigam instruções ou confirmem
resultados esperados; é necessário um andaime explícito por parte do professor,
que inclua a modelagem do pensamento científico, a formulação de perguntas
investigáveis, a conexão entre variáveis e um apoio motivacional sustentado. Os
achados revisados concordam que a orientação pedagógica deliberada transforma
uma atividade meramente procedimental em uma autêntica experiência de
investigação, onde o erro se transforma em oportunidade de aprendizagem e a
curiosidade em motor do conhecimento.
Da mesma forma, identificou-se que a contextualização da
aprendizagem e a adoção de abordagens como a cultura maker ou as metodologias
STEM e STEAM potencializam significativamente o desenvolvimento das HCOS.
Quando os experimentos se vinculam a problemas reais do entorno dos estudantes,
a situações cotidianas ou a desafios sociais autênticos, a ciência deixa de ser
um conjunto de conceitos abstratos para se tornar uma ferramenta viva de
interpretação e transformação da realidade. O ciclo de projetar, construir e
testar, característico do movimento maker, promove um pensamento iterativo,
criativo e colaborativo que dificilmente se alcança com as práticas de
laboratório convencionais.
Igualmente, conclui-se que existe uma estreita relação
entre a argumentação e o pensamento crítico. Os estudos analisados demonstram
que o ensino explícito da argumentação científica não apenas melhora a
capacidade dos estudantes para sustentar suas afirmações com evidências, mas
também explica uma parte substancial da variação na disposição ao pensamento
crítico. Isso significa que fomentar espaços de intercâmbio dialógico, rotinas
de perguntas como "o que aconteceria se...?" ou estratégias de
observação reflexiva não são atividades complementares, mas componentes
centrais de qualquer proposta didática que aspire a formar cidadãos
cientificamente alfabetizados.
Finalmente, torna-se evidente que, apesar do consenso
teórico sobre os benefícios da experimentação, persistem importantes lacunas
estruturais e formativas na América Latina que limitam seu impacto. A falta de
laboratórios equipados, as dificuldades de conectividade e, sobretudo, a
escassa formação docente em abordagens de investigação e argumentação mantêm
muitas salas de aula ancoradas em práticas tradicionais centradas na repetição
e no conteúdo. Superar essas limitações requer não apenas investimento em
infraestrutura, mas também uma mudança profunda na formação inicial e
continuada do professorado de ciências naturais, de modo que a experimentação
se converta realmente em um veículo para o desenvolvimento de habilidades
científicas de ordem superior e não em um mero exercício de verificação.
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Data de receção do artigo: 3 de fevereiro de 2026
Data de aceitação do artigo: 24 de fevereiro de 2026
Data de aprovação para diagramação: 3 de abril de 2026
Data de publicação: 30 de junho de 2026
[1] Omar Escalona
Vivas é Dr. em Ciências da Educação (Universidad Nacional Experimental
Simón Rodríguez), Pós-doutor em Processos Sintagmáticos da Ciência
(International Lifelong Learning University, ILLU – Centro Internacional de
Estudios Avanzados, CIEA-SYPAL), licenciado em Ciências Biológicas (Universidad
Católica del Táchira). E-mail de contato: omar.escalona@iesip.edu.ve
[2] Víctor Bless Gutiérrez é Dr. em Ciências Pedagógicas (Universidad de Ciencias Pedagógicas) e Dr. em Ciências Matemáticas (Universidad de Oriente). Departamento de Pós-Graduação e Investigação da Faculdade de Tecnologia da Saúde (FATESA), vinculada à Universidad de Ciencias Médicas de La Habana (UCMH) , La Habana – Cuba. E-mail de contato: vblessgutierrez@gmail.com