17
REDIP, Revista Digital de Investigación y Postgrado, E-ISSN: 2665-038X
Editorial
A Educação na encruzilhada: Realidades digitais, desigualdades persistentes e novos
paradigmas
Cara comunidade acadêmica de leitores,
Esta edição de nossa revista ergue-se como um mosaico deliberado, onde cada peça investigativa
ilumina uma faceta crítica do complexo panorama educacional contemporâneo. Os oito artigos aqui
reunidos, juntamente com a conferência final, não constituem uma coleção aleatória, mas um itine-
rário reflexivo cuidadosamente disposto. Este percurso nos guia desde a transformação concreta das
salas de aula rumo aos desafios humanos mais profundos, passando pelos marcos de gestão e os
imperativos éticos, para culminar em uma reflexão fundamental sobre os próprios alicerces do saber.
A sequência proposta —de Schneewele a Medina Borges— não é cronológica, mas conceitual, re-
velando um diálogo intrínseco entre o digital, o humano, o organizacional e o filosófico.
Abrimos este diálogo no terreno da prática imediata. O estudo de Manuel Schneewele sobre a pla-
taforma PrimOT na França nos situa no coração da digitalização cotidiana do ensino primário. Sua
análise demonstra uma adoção ampla e uma integração efetiva desse espaço digital de trabalho,
normalizando seu uso nas rotinas pedagógicas. Este sucesso, contudo, não é um ponto final, mas
um ponto de partida que imediatamente nos obriga a olhar além da ferramenta.
Porque a tecnologia é implementada em contextos humanos complexos. A reveladora revisão siste-
mática de Celia Gallardo Herrerías sobre a relação entre a criança com TDAH e o entorno familiar
nos recorda com contundência que o processo educativo transcende o espaço digital ou físico;
arraíza-se em dinâmicas emocionais e relacionais bidirecionais. O ciclo de emocionalidade negativa,
estilos parentais e sintomatologia clínica descrito evidencia que qualquer inovação pedagógica —in-
cluindo as digitais— deve ser sensível ao bem-estar psicossocial do estudante e seu sistema de apoio.
Não se pode otimizar o ensino sem compreender essas interdependências fundamentais.
Precisamente, a eficácia da ferramenta digital quando o contexto humano é considerado fica robus-
tecida pela pesquisa de María Elena Di Tillio Cárdenas e Luis Alejandro Lobo Caicedo. Sua avaliação
quantitativa confirma que a aplicação pedagógica das TIC em disciplinas como Geografia e História
favorece significativamente o rendimento acadêmico. Este achado empírico valida a direção apon-
tada por Schneewele, mas, assim como ele, seus autores advertem: o sucesso depende da formação
docente e da adequação estratégica. A ferramenta é potente, mas sua potência é canalizada pela
competência profissional e pela consciência do contexto.
Diante dessa realidade de salas digitalizadas e realidades humanas complexas, surge a pergunta pela
liderança que pode conduzir essas transformações. A pesquisa de Beisy Lisbeth Romero Luzardo
sobre a Gestão Educacional Consciente oferece uma resposta paradigmática. Em um mundo BANI
(Frágil, Ansioso, Não linear, Incompreensível), propõe transcender os modelos gerenciais tradicionais
rumo a uma Administração Educacional Transpessoal Consciente. Esta abordagem cultiva uma li-
derança ética, resiliente e colaborativa, que integra a atenção plena e o desenvolvimento humano
integral. É o marco necessário para gerir instituições que devem simultaneamente integrar tecnologia
18
Instituto de Estudios Superiores de Investigación y Postgrado
(como a PrimOT), acolher diversidades (como nos casos de TDAH) e potencializar a aprendizagem
(mediante TIC), tudo com sabedoria e adaptabilidade.
Como se traduz essa liderança consciente na prática cotidiana da gestão? O estudo de Deinny José
Puche Villalobos e Savier Fernando Acosta Faneite em Maracaibo aporta uma peça crucial ao de-
monstrar, com evidência quantitativa, a correlação positiva entre os indicadores de gestão e a efe-
tividade na tomada de decisões. Para os dirigentes, essa relação é particularmente forte. A gestão
consciente não prescinde dos dados; os requer e os humaniza. Os indicadores são a bússola, mas a
consciência é a capacidade de navegar com ela em águas turbulentas.
A excelência na gestão e na docência deve, por sua vez, sustentar-se na qualidade do conhecimento
que se gera e se transmite. O trabalho de Jossarys Gazo Robles sobre a avaliação da qualidade in-
vestigativa dos docentes universitários desde a eficiência, eficácia e efetividade, situa a pesquisa
como o pilar fundamental do ecossistema educacional. Sem uma produção científica rigorosa, as fe-
rramentas digitais, as estratégias inclusivas e os modelos de gestão carecem de um substrato de con-
hecimento válido e confiável.
Avançando nessa camada de pensamento crítico, a análise de Thais Raquel Hernández Campillo
sobre alfabetização em inteligência artificial e curadoria de conteúdos na França aponta o hori-
zonte de complexidade que enfrentamos. Não basta usar tecnologia (Schneewele) nem medir seu
impacto (Di Tillio e Lobo); agora é imperativo desenvolver uma competência crítica e ética para in-
teragir com sistemas de IA. A curadoria de conteúdos emerge como a habilidade chave para discri-
minar, contextualizar e dotar de sentido a informação em um entorno mediado por algoritmos. É o
antídoto necessário contra a desinformação e a superficialidade.
Contudo, toda essa conversa sobre vanguarda digital e pensamento crítico pode parecer abstrata
quando contrastada com realidades onde o básico está em xeque. A reflexão de Mário Adelino Mi-
randa Guedes sobre o acesso à educação primária em Angola é um lembrete ético ineludível. O dado
de 22% de exclusão escolar nos confronta com a desigualdade persistente como o maior desafio
educacional global. Os fatores socioeconômicos, geográficos e de saúde que limitam o acesso em
Angola e em tantos outros lugares exigem que qualquer paradigma inovador inclua, como primeiro
mandato, a luta pela equidade. Não se pode debater sobre IA enquanto milhões de crianças nem
sequer têm uma sala de aula.
Finalmente, para dar coerência e profundidade a este mosaico de realidades —digitais, emocionais,
gerenciais, críticas e desiguais— recorremos à conferência de Rosa María Medina Borges, “Filosofia
ou Filosofias?”. Seu questionamento radical ao cânone único e sua defesa da pluralidade de saberes
nos proporcionam o marco filosófico último. A educação na encruzilhada não precisa de uma resposta
monolítica, mas da capacidade de dialogar com múltiplos paradigmas. Sua reflexão valida a coexis-
tência e o diálogo necessário entre a eficácia tecnológica, a sensibilidade humana, a gestão cons-
ciente, o rigor investigativo, a alfabetização crítica e a justiça social.
Em conclusão, a sequência desta edição nos revela uma viagem da ferramenta rumo ao sentido.
Mostra que a realidade digital (Schneewele, Di Tillio e Lobo, Hernández Campillo) é inseparável da
realidade humana (Gallardo Herrerías, Miranda Guedes), e que ambas requerem novos paradigmas
19
REDIP, Revista Digital de Investigación y Postgrado, E-ISSN: 2665-038X
de gestão (Romero Luzardo, Puche e Acosta) e exercício profissional (Gazo Robles), tudo sob um
olhar filosófico plural e crítico (Medina Borges). A encruzilhada não é um beco sem saída, mas um
cruzamento de caminhos onde a direção a tomar dependerá de nossa capacidade para integrar, com
sabedoria e justiça, todas essas dimensões. Os artigos aqui apresentados não apenas diagnosticam
esta encruzilhada, mas oferecem valiosas luzes para transitar por ela.
Dr. Omar Escalona Vivas
https://orcid.org/0000-0003-2560-0339